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  Título
Fissuras afrodiaspóricas nos filmes O Tempo dos Orixás e Parish Bull
Autor
Liliane Pereira Braga
Resumo Expandido
Nesta proposta de comunicação, afrodiásporas de Brasil e Jamaica são colocadas em diálogo a partir de produções audiovisuais contemporâneas desses dois países que, a partir de travessias transatlânticas, se aproximam, mas também se fissuram.

Em formação cultural caribenha – a qual o Brasil se relaciona –, traços negros, “‘africanos’, escravizados e colonizados”, muitos dos quais não ditos, subterrâneos e subversivos, governados por uma atração por passados recentes e não explicados, têm sido sempre “posicionados em termos de subordinação e marginalização” (HALL, 2009b, pp. 40-41, grifos do autor). Em proposta de leitura crítica de como tais traços aparecem nas duas localidades afrodiaspóricas elencadas, seguem-se trilhas de filmes sintetizados a seguir:

Parish Bull (“O garanhã da paróquia”, em livre-tradução) é uma produção de 2012, dirigida por Michael “Ras Tingle” Tingling, na qual o jovem jamaicano Michael Walters, funcionário em uma empresa de reparo de ar-condicionado em Kingston, é um paquerador contumaz. Sua fama corre, e seu chefe mantém “olho aberto” quando Michael realiza trabalhos com o carro da empresa. Em certa ocasião, o funcionário vai trabalhar em cidade do interior, conhecendo Selena, jovem mulher que encontra na estrada. Depois de passarem a noite juntos, ele a deixa na casa da mãe, retornando a Kingston. Na vez seguinte que é escalado para trabalho externo, o rapaz vai à casa onde, semanas antes, deixara Selena. Lá, conversa com a mãe da moça, e é surpreendido pela notícia de que a jovem, havia morrido no ano anterior, vítima de acidente de carro. Espantado, ele é submetido a práticas cosmológicas afro-jamaicanas, recomendadas para “desencostar” dele o espírito de Selena. Subentende-se, assim, que Michael aprenderia a lição, passando a repensar sua relação com as mulheres.

Em Tempo dos Orixás, é narrada a experiência de Lili, uma menina de 7 anos que tem o dom de se comunicar com os ancestrais. Ao chegar com a mãe e os dois irmãos à ilha onde mora a avó, e também mãe-de-santo, dona Rosa, o referido dom se revela quando, em meio a tarefas que vai realizar na mata, a menina tem visões nas quais “recebe a visita” de Exu. O mensageiro a adverte de que a ilha, que passa por desequilíbrios, não será a mesma enquanto a comunidade não voltar a realizar a festa para Iemanjá. Logo após o processo de iniciação espiritual de Lili para a orixá ligada ao mar, a avó falece, indicando que o bem-estar da comunidade pode ser assegurado com a manutenção da tradição por membros da comunidade, retomada a partir do chamado atendido.

Imprevisibilidade de que fala Glissant (2013, p. 21), gera, em Afro-Latino-Américas, “microclimas culturais e linguísticos absolutamente inesperados” que aproximam Brasil e Caribe, a partir de sistemas de grandes plantações. Expressões culturais (re)elaboradas em encontros afrodiaspóricos se assemelham, emanadas de lógica própria de comunidades sob “regimes de oralidade” (ANTONACCI, 2016), com seus pensares corpóreos e sua performatividade em trânsito com letra escrita.

Propõe-se aqui observar rasuras, também vistas como fissuras, do que proveniente de e em reelaborações desde África, constituem sentidos locais de identidades negras. Em AfroIndoAméricas, elites distinguem-se tanto em termos étnico-raciais e educacionais. Já enquanto parte da população em condições históricas de subalternização distancia-se de Áfricas em práticas que seguem a cartilha da globalização; outra parte mantém, com suas especificidades, caminho de diálogo com práticas de saberes ancestrais africanos do continente e de suas diásporas.

O diálogo, neste artigo, é com rasuras e fissuras, em afrodiásporas, entre modos de ser e estar oriundos de matrizes orais de sujeitxs “esbarradxs” em colonialidade. São muitas as feridas coloniais resultantes de sistema de representação hegemônico, adensando-se caminhos a leituras críticas de reverberações de tal sistema em cinemas afrodiaspóricos contemporâneos.
Bibliografia

ANTONACCI, Antonieta. História e pedagogia em “lógica oral”: Hall e o “Espetáculo do Outro”. In: Projeto História: revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, no. 56. São Paulo: EDUC, 2016.

BRAGA, Liliane Pereira. Cinemas afrodiaspóricos contemporâneos: modos de ser e viver em crítica a ethos coloniais norte-hemisféricos. In: ENCONTRO ESTADUAL DA ANPUH SÃO PAULO, XXIII., 2016, Assis. Anais do XXIII Encontro Regional de História da ANPUH-SP. São Paulo: ANPUH-SP, 2016.

CHAM, Mbye (ed.). Ex-Îles: essays on Caribbean cinema. New Jersey: Africa World Press, 1992.

GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. 1ª reimpressão. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2013.

HALL, Stuart. Da diáspora: : Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

THOMPSON, Robert Farris. Flash of the Spirit: arte e filosofia africana e afro-americana. São Paulo: Museu Afro Brasil, 2011.