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  Título
Palavras de ordem: a relação imagem-texto em "A chinesa" e "L'été"
Autor
Luiz Carlos Oliveira Junior
Resumo Expandido
Em "A chinesa" (Jean-Luc Godard, 1967), um grupo de jovens politizados passa o verão confinado num apartamento em Paris, em uma espécie de “férias ‘marxistas-leninistas’”, como define o próprio realizador do filme. Eles discutem as bases teóricas de sua práxis política, citam passagens do “Livro Vermelho” de Mao Tsé-Tung, dão e recebem aulas sobre pintura, filosofia e anti-imperialismo. As paredes do apartamento estão preenchidas por frases e slogans que predizem as “mots d’ordre” de Maio de 1968, evento histórico do qual A chinesa, visto em retrospecto, parece representar os pródromos, o estado de germinação.



Tais frases reaparecem em "L’été" (Marcel Hanoun, 1968), filmado no verão do ano seguinte e protagonizado por uma jovem que, após se engajar em Maio de 68, retira-se numa casa de campo. Nessa casa há um painel com fotos que a mostram posando à frente de muros e calçadas parisienses onde palavras de ordem foram grafitadas. L’été desloca da cidade para o campo a situação de isolamento e confinamento de A chinesa: uma mise-en-scène em huis clos impregnada de reflexividade crítica, constituindo uma das figuras recorrentes da modernidade tardia do cinema.



"A chinesa" é o verão pré-Maio de 68; "L’été", o verão pós, a reminiscência do evento, que a imagem fotográfica documentou com seu índice de realidade. Em ambos, chama atenção a presença ostensiva do texto, tanto aquele exibido e impresso na tela quanto o lido em voz alta ou datilografado pelas personagens. A frontalidade das imagens (platitude, legibilidade, recorrência do primeiro plano) é acompanhada por uma frontalidade dos discursos. A tela é praticamente transformada em superfície de escrita, sobretudo no filme de Godard, cujo grafismo é inflacionado.



Muitos planos de "A Chinesa" são compostos à maneira de colagens, sínteses dialéticas de materiais heterogêneos: jornais, cartazes, logomarcas, livros de filosofia, retratos de Brecht, Malcom X, Novalis etc. Recortando e colando os sinais emitidos tanto pela juventude maoísta quanto pela cultura erudita e pela mídia de massa, Godard cria um espaço polifônico que remonta à fragmentação polissêmica de uma colagem cubista. Cultura e contracultura, mensagem publicitária e propaganda política, revista em quadrinho e imprensa independente de esquerda: tudo se choca numa tela cuja natureza bidimensional é assumida e reforçada – a imagem é tratada como superfície opaca e plana, na qual se arranjam signos icônicos e verbais segundo uma lógica que, longe de restringir o campo semântico, promove “a circulação do signo” e “desencadeia a constelação do significado”, para usar as palavras de Rosalind Krauss a respeito dos papiers collés de Picasso.



Em meio às práticas de montagem e desmontagem do signo no modernismo, a colagem cubista instaurou um espaço fértil de relação entre palavra e imagem. Ao longo da história da arte, dos manuscritos medievais às vanguardas do século XX, houve diferentes formas de incorporação da palavra no campo visual da imagem. O sistema semiótico da colagem cubista impõe um modelo de ruptura que interessa especialmente ao propósito desta comunicação.



No cinema, a tensão entre imagem e palavra se repõe, por exemplo, nos anos 1920, quando cineastas avessos às “impurezas” (Murnau, Epstein, Dulac) buscaram diminuir ao máximo a utilização do texto escrito, julgado inconveniente, herança literária a ser banida de uma arte que almejava falar só por imagens. Mas houve artistas que, na via contrária, testaram os limites estéticos e semióticos da presença da palavra na imagem móvel do cinema: Duchamp, Léger, Eisenstein.



Meu objetivo é comparar "A chinesa" e "L’été" com base no papel central que a palavra escrita desempenha em ambos. Investigarei como isso se articula com uma história da relação imagem-texto nas artes visuais, sobretudo na colagem cubista, e como os filmes reagem à exigência de legibilidade de algumas frentes militantes em torno de 1968.
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