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  Título
Sinfonia de uma metrópole – as cidades filmadas
Autor
Thaís Itaboraí Vasconcelos
Resumo Expandido
O surgimento das grandes cidades, espaço moderno por excelência, está intrinsecamente ligado com a história do cinema. As metrópoles do início do século XX eram cenários e personagens de inúmeros filmes documentais, sejam eles clássicos ou vanguardistas. O cinema surge dentro do ambiente urbano, sendo produzido e pensado para um espectador também urbano.

Barbara Mennel (2008) ressalta como a experiência da metrópole moderna alterou a percepção visual e produziu novas formas narrativas e possibilidades de representação estética. O cinema era parte da nova cultura de massa emergente.

Condensadas no espaço-tempo dos anos 20 as sinfonias urbanas nos permitem recortes variados. Em retrospecto, podemos destacar sua relação com os travelogues, que tratavam de países longínquos e viagens, e destacar a inovação em se ater a filmar o local ao redor do cineasta, a sua realidade, bem como a relação de exaltação do movimento característico das cidades da época, expressas num cinema de vanguarda com montagem rítmica e inovadora “a cinematografia se ampara na cinemática urbana, a exalta, intensifica e exacerba” Comolli (2008, p.183).

Do ponto de vista da contemporaneidade é possível refletir sobre uma certa ingenuidade na exaltação do urbano. Comolli diz que são “cantos de amor a cidade filmada”. (2008, p. 183)

Cabe pensar o contexto histórico em que as sinfonias urbanas foram produzidas. Na linguagem cinematográfica surgiam possibilidades e opiniões diversas sobre as mudanças trazidas pelo início do filme sonoro. Também é importante ressaltar a relação com movimentos de vanguarda, denominados AvantGard, que influenciaram e dialogaram com as sinfonias urbanas.

Os filmes denominados “sinfonias urbanas” têm como marca principal o passar do tempo, marcado por um dia, do despertar ao anoitecer. Outro ponto em comum é o privilégio da montagem como espaço de criação, em narrativas que expõem a modernidade como fragmentada e abstrata. São filmes onde o protagonista é a cidade com seu cotidiano e onde não há preocupação com as já iniciadas estruturas narrativas clássicas. Destaca se no recorte da pesquisa três produções da época: Rien que les heures (1926), Berlim, sinfonia de uma metrópole (1927) e O Homem com uma Câmera (1929), refletindo sobre o contexto histórico e artístico de cada filme procurando, em seguida , detectar possíveis reverberações sinfônicas

Em 2002 o cineasta Thomas Schadt, lançou a refilmagem do filme Berlim, Sinfonia da Metrópole, com título homônimo. Assim como a Berlim de Ruttmann o filme apresenta imagens gráficas e montagem ritmada, porém já não há uma ode a cidade, muito pelo contrário. Mattos define o filme como “um remake melancólico, onde o entusiasmo foi substituído por uma estranha sensação de solidão e incomunicabilidade, apesar de todo progresso material” (2012 , p.1).

Dentro dos filmes contemporâneos brasileiros que dialogam com essa tradição, nos provocando novos olhares para o urbano, temos o longa Sinfonia de um homem só, de Cristiano Burlan (2012). A primeira sequência do filme, pode ser vista como uma sinfonia urbana revisitada, uma sucessão de fotografias em preto e branco de uma São Paulo noturna e inabitada, o movimento da cidade é trabalhado pelo campo sonoro, ruídos que nos induzem a um fora de campo em movimento.

Destaca-se também a trilogia metropolitana Urbe, Pólis e Taba, do diretor Marcos Pimentel. No qual, o cineasta revisita possíveis olhares para a cidade “ em busca de padrões de movimento, fluxos, aceleração e repouso, acumulação, serialização, mecanização” (MATTOS,2015, p. 1).

Maria Elena Costa (2008) no artigo “A cidade como cinema existencial”, reflete as atualizações da imagem da cidade ao longo da história do cinema, e nos faz pensar no que seria a imagem pós-moderna da cidade. A partir da analise das reverberações sinfônicas levantadas, refletiremos sobre possíveis olhares do cinema para o urbano, numa busca do que seria a representação da cidade pós-moderna.
Bibliografia

CHARNEY, Leo, SCHWARTZ, Vanessa. (Org.). O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: CosacNaify, 2001.

CLARKE, David (Ed.) The cinematic city. New York: Routledge, 2005.

COSTA, Flávia Cesarino. O primeiro cinema. São Paulo: Scritta, 1995.

COSTA, Maria Helena. A cidade como cinema existencial. Revista de Urbanismo e Arquitetura, v. 7, n. 2, 2008.

COMOLLI, Jean-L. Ver e poder - A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

DA-RIN, Silvio. Espelho partido: tradição e transformação do documentário. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2004.

MENNEL. Barbara. Cities and cinema. New York : Routledge, 2008.

MATTOS , Carlos Alberto. O olho que ouve. 20 set. 2015. Disponível em: . Acesso em: 25 ago. 2017.

MATTOS , Carlos Alberto. Sinfonia de Berlim. 7 out 2012. Disponível em . Acesso em: 22 ago. 2017.