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  Título
A Lei do Curta: do documentarismo militante a "Primavera" ficcional
Autor
Simplicio Neto Ramos de Sousa
Resumo Expandido
Este trabalho se propõe a investigar, dentro de um determinado recorte histórico, no âmbito dos circuitos exibidores de filmes brasileiros, um ponto de confluência problematizável entre as demandas da exibição cinematográfica, as políticas governamentais que visam sua regulação, e as propostas estéticas advindas do campo da realização e da criação. Nosso estudo se concentra exatamente na percepção de um fenômeno social único, ocorrido entre finais dos anos 70 e ao longo dos anos 80 do século passado no Brasil, que embaralha questões de linguagem, gênero, formato, e, enfim, recepção do público nos meios de exibição, mostrando o impacto que políticas de exibição pode ter nas estéticas do cinema, e vice-versa. Trata-se de quando a chamada Lei do Curta garantiu espaço no mercado exibidor nacional para o formato de curta-metragem, e houve uma passagem gradativa: de uma resposta negativa por parte de público e exibidores, para uma repercussão mais positiva, ao longo dos anos de sua implementação. Este maior “sucesso” da iniciativa coincide, na verdade, com a entrada de novos agentes realizadores, no processo que ficou conhecido, para alguns como o Sistema do Curta Metragem, para outros como a Primavera do Curta. Processo que selou o destino, a carreira, de uma geração de autores, consagrados por seu domínio de convenções narrativas associadas ao cinema de gênero, domínio demonstrado nesse contexto de exibição. É o caso, por exemplo, dos curtas de Jorge Furtado, que para além da boa repercussão no circuito exibidor, receberam também premiações importantes em festivais. Ao ter seus curtas veiculados em concorrência direta com os longas estrangeiros, atribuiu-se a recepção positiva do público a uma elaboração mais eficaz do roteiro ficcional. A princípio, este é um momento de tomada de poder, por forças criadas no ambiente politizado e militante da atividade cineclubística, fundada no associativismo. Forças cuja luta, ao longo da década anterior, alcançou, por meio de instrumento institucional, por força de lei, uma cota, um espaço maior para os curtametragistas nessa fortaleza desejada, uma fatia no cobiçado circuito exibidor comercial. A questão de fundo é que a já então estabelecida rede de cineclubes pensada pelas associações mais atuantes de então, caso do CNC (Conselho Nacional de Cineclubes), como um Mercado Exibidor Alternativo, mostrava-se, nos anos 70, não como o campo do cinema de gênero ficcional, mas sim como o espaço default para o documentário militante, engajado, politizado e mesmo experimental. No entanto, ironicamente, a conquista do espaço para o curta no circuito maior, empreendida pelo associativismo da ABD (Associação Brasileira de Documentaristas), não representará a conquista de espaço no coração do público para tais linhas estéticas engajadas, alimentando uma discussão continuada entre o autoral e o genérico, o documentário e a ficção, o narrativo e o experimental, o entretenimento e o engajamento, a produção e a exibição. Tal trabalho dá continuidade a nosso esforço de contribuição para história do curta metragem brasileiro, já iniciado por artigos publicados, esforço na contramão da tendência dominante da historiografia tradicional do cinema brasileiro, que como aponta Jean-Claude Bernardet, foi uma história da produção, e não da exibição, e do longa–metragem de ficção, e não de outros formatos ou gêneros. Buscamos entender aqui, até que ponto, a associação entre políticas públicas, mercado exibidor, e esforço realizador, quando assim conjugadas, vão de encontro a formas especificas de recepção pelo público de cinema.
Bibliografia

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