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  Título
O animal errante: natureza, corpo e paisagem em O Ornitólogo
Autor
João Victor de Sousa Cavalcante
Resumo Expandido
O trabalho investiga as relações entre corpo e paisagem no longa-metragem O Ornitólogo (2016), do cineasta português João Pedro Rodrigues. Interessa-nos pensar a floresta como um espaço limítrofe, cuja recorrência no cinema remete a uma ambivalente carga simbólica, e que se apresenta n’O Ornitólogo como uma zona movediça, de existência autônoma, que emerge no espaço fílmico como uma paisagem mística, ligada ao estranhamento.

O filme se desdobra sobre Fernando, cientista que observa aves em uma região portuguesa próxima à fronteira com a Espanha. Levado pela correnteza em um acidente de barco, o ornitólogo é resgatado por duas religiosas peregrinas chinesas que decidem puni-lo pelo seu manifesto ateísmo. As fugir do castigo, abre-se para Fernando um caminho de errância marcado pela relação com o animal. A narrativa reconta saga de Santo Antônio de Pádua por meio de um movimento de transformação empreendido por Fernando, que se despe da racionalidade de homem da ciência e experimenta uma imersão na natureza e posterior ascensão na figura do santo. Com poucos diálogos e uma temporalidade lenta, o filme justapõe elementos da ordem do sagrado e do erótico, ressignificados no corpo e na paisagem.

O deslocamento empreendido por Fernando é, também, uma movimentação do olhar: inicialmente temos o observador racional, colonizador, ocupando um espaço de poder escópico e catalogador em relação à natureza, para em seguida vivenciarmos uma desacomodação desse olhar, um perspectivismo mais fluido (VIVEIROS DE CASTRO, 2002), em que somos levados a assumir o ponto de vista das aves que, por sua vez, também observam Fernando.

Esse movimento de tensão entre observador e observado aciona uma problemática entre natureza e cultura (animal e homem), marcada pela relação que o personagem tem com o território da floresta, criando uma torção na relação entre corpo e paisagem.

O filme nos conduz para um movimento corpóreo de exploração do espaço inóspito da floresta, estrangeiro em relação ao espaço urbano, de modo que o apelo estritamente visual da natureza perde seu sentido como um contraponto ao cultural e adquire um caráter de experiência com acentuada autonomia narrativa, que não é conduzida apenas pelas ações do personagem. Vemos, em O Ornitólogo, uma ascensão da floresta como elemento fílmico, que impõe sua presença na narrativa, não sendo apenas palco para as ações do personagem. Observamos um deslocamento da ideia de cenário para a de paisagem, em que esta ocupa um lugar de autonomia no espaço filmado em relação à ação (LEFEBVRE, 2006).

A natureza não marca aqui um espaço de fuga telúrica ou um ambiente hostil, imagens que remetem a um distanciamento, a uma alienação em relação ao homem. O que temos é a própria floresta como um elemento narrativo que aciona outro tipo de ecologia fílmica ao trazer as relações entre homem e natureza marcadas por um tensionamento de forças, que torna fluída a perspectiva antropocêntrica e conduz o personagem por um processo de devir- animal (DELEUZE&GUATARI, 1996), figurado no filme por uma errância e pelos embates do corpo com o ambiente.

A errância, movimento em que Fernando singra e imerge na paisagem, acomoda-o de modo conflituoso na fauna existente. A relação com o animal e o crescente afastamento do universo da cultura é evidenciado pelo abandono de marcas civilizatórias (fogo, telefone, carro) e de marcadores de individualidade (roupas, impressões digitais, nome próprio). Ao deslocar proposições tradicionais de paisagem e corpo (fundo e figura), o filme cria uma ambiência em que os limiares entre natureza e cultura desmontam-se em nome de uma zona limítrofe, em que o personagem torna-se, ele próprio, um ser fronteiriço, monstruoso.

O trabalho tem ancoragem conceitual (além dos autores citados) no pensamento do filósofo Eugénio Trías sobre o tema do limite, além de autores que versam sobre a questão da paisagem (CAUQUELIN, 2007; INGOLD, 2000; NANCY, 2005).
Bibliografia

CAUQUELIN, Anne. A Invenção da Paisagem. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

DELEUZE, Gilles & GUATARI, Felix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia (volume 2). Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.

INGOLD, Tim. Temporality of the landscape. In: INGOLD, Tim. The Perception of the Environment: essays in livelihood, dwelling and skill, Londres, Routledge, 2000.

LEFERBVRE, Martin (ed). Landscape and film. Londres: Verso, 2006.

NANCY, Jean-Luc. The ground of the image. Nova York: Fordham University Press, 2005.

TRÍAS, Eugenio. Los limites del mundo. Barcelona: Editora Destino, 2000.

____________. Lo Bello e lo Siniestro. Barcelona: Editora Debolsillo, 2006.

____________. El Hilo de la Verdad. Barcelona: Editora Imago Mundo, 2004.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O nativo relativo. In: Mana 8(1), 2002, 113-148.