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  Título
“Jonas e o circo sem lona”: a escola, o cinema, a estética do risco
Autor
FERNANDA OMELCZUK WALTER
Resumo Expandido
Escola e circo são motivos visuais recorrentes na história do cinema. Desde Zero de Conduta de Jean Vigo, aos recentes Entre os Muros da Escola de Laurent Cantet, ou Numa Escola em Havana de Ernesto Serrano. O circo de Charles Chaplin, Os palhaços de Fellini, Noites de Circo de Ingmar Bergman, tantos outros. Em 2015 a diretora Paula Gomes colocou os dois – escola e circo – num só filme.

Jonas e o circo sem lona narra o envolvimento de Jonas com o circo que ele mesmo monta, constrói, ensaia, divulga, junto aos amigos no quintal de sua casa no interior da Bahía. Jonas tem 13 anos, mora com a mãe e a avó, que foram artistas circenses. A mãe, desencantada com a instabilidade da vida mambembe tenta a todo custo incentivar os estudos formais na esperança de que o filho tenha um trabalho melhor. A avó, discretamente saudosa dos tempos de outrora, acompanha os ensaios do neto.

Jonas constrói o circo com os “restos do mundo adulto” – pedaços de arquibancada, lonas velhas, o trapézio do circo onde sua família trabalhava (BENJAMIN, 2002). Esse universo, que poderia parecer devaneio de fantasia infantil, se faz real e profundamente envolvente no filme de Paula, que acompanha a dedicação, a autonomia, a disciplina de Jonas com a rotina dos ensaios, a montagem, a criação dos espetáculos. A “brincadeira” é vivida com compromisso e seriedade em contraste com as acusações dos adultos acerca de um Jonas irresponsável e relapso com os estudos e a escola.

Assim, ao dar a ver a história de Jonas, Paula provoca o real com a presença da câmera e coloca em circulação traços de diferentes regimes da imagem da infância e da escola na contemporaneidade. A diretora da instituição, por exemplo, reclama que a presença da equipe documentarista na escola altera o comportamento de Jonas, inventa um novo Jonas preferimos dizer. Ela considera um mal exemplo filmar um aluno que não tem um bom desempenho nas provas e tarefas. O cinema, em sua visão, deveria manter uma correspondência mais direta com o que percebia, “representar o real” e não intervir nele (RANCIÈRE, 2009).

Mas o que o cinema de Paula faz é suspender modos de percepção das “crianças problemas” comumente compartilhados pela comunidade escolar. Suas imagens colocam em circulação um menino atento, interessado e sensível.

Assim, a câmera de Paula filma desde o início a favor de Jonas, uma câmera intencionada e assertiva, que corre com ele os riscos dessa relação - de toda relação - se tornando ela também uma personagem da história, que intervém junto à mãe do menino para que o deixe ir para o circo, que consola Jonas pelo fracasso de sua empreitada – numa câmera tátil, que não só o filma, mas também o toca, literalmente, pelas mãos a acaricia-lo - já que a volta às aulas acaba por impedir a continuidade de seus colegas no projeto, o que deixa Jonas triste e envergonhado (COMOLLI, 2008).

O interesse do menino pelo circo - a mais marginal das artes, um não lugar marcado pela instabilidade e o nomadismo - tenciona ainda mais a relação com a escola – lugar do conhecimento oficial, das certezas e busca por segurança. Não se trata de uma criança problema e “preguiçosa”, mas um menino que opta por abandonar a segurança e conforto da escola, o equilíbrio e estabilidade das ciências, como tantas vezes argumenta sua mãe, por uma vida itinerante que exige dedicação e trabalho. No circo o risco é condição eminente do artista em diferentes dimensões: riscos financeiros, físicos, emocionais, simbólicos (GOUDARD, 2009).

Jonas escolheu viver esses riscos. Paula, com seu modo de fazer cinema, assumiu os riscos do “engajamento e fricção com o mundo”. Que riscos a presença de Jonas e do cinema provocam na escola? O que há de skholar em Jonas e no cinema que a instituição tenta domar? Que riscos o escolar atualizado em Jonas e no cinema de Paula oferecem ao “equilíbrio” cotidiano? (MASSCHELEIN; SIMONS, 2014).
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas Cidades, 2002.



COMOLLI, Jean Louis. Ver e poder. Cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: UFMG, 2008.



GOUDARD, Philippe. Estética do risco: do corpo sacrificado ao corpo abandonado. Em: WALLON, Emmanuel (org.) O circo no risco da arte. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.



MASSCHELEIN, Jan; SIMONS, Maarten. Em defesa da escola: uma questão pública. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.



RANCIÈRE, Jacques. A partilha do Sensível: estética e política. São Paulo: EXO experimental org; Editora 34, 2009.