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  Título
Ser negra na tela: a construção de um olhar de enfrentamento
Autor
Lygia Pereira dos Santos Costa
Resumo Expandido
O ensaio The Oppostional Gaze (1992) escrito pela intelectual negra bell hooks trata da experiência espectatorial de mulheres negras americanas, desenvolve uma linha de pensamento que tem no olhar uma forma de enfrentamento às narrativas hegemônicas. Resgatando a relação entre o olhar do escravizado e seu senhor, hooks constrói uma argumentação que contempla no ato de olhar uma relação de poder. Ao citar Foucault, ela coloca o poder como sendo uma forma de dominação que se reproduz em diferentes locais, empregando aparatos, mecanismos e estratégias similares de controle, assim, a tentativa de reprimir o olhar das pessoas negras teria gerado, em resposta, uma ânsia pelo olhar, um desejo rebelde, um olhar opositivo. Encarar-se torna um mecanismo de resistência e transformação.

Ao longo do século XX as imagens, difundidas pela fotografia, cinema e televisão alteraram significativamente as relações interpessoais, assim como a maneira como os processos de subjetivação e políticas identitárias são formados. Estamos submetidos a relações onde as imagens, carregadas de significados, mediam as dinâmicas psíquicas, do cotidiano, econômicas e políticas. Para hooks, a experiência espectatorial de mulheres negras foi desenvolvida a partir de uma relação com o olhar num contexto cinematográfico que constrói a presença de mulheres negras a partir da ausência, que nega seu corpo a fim de perpetuar a supremacia branca.

Bell hooks levanta algumas questões pertinentes à formação do olhar de espectadoras negras, especialmente no que diz respeito a quanto as mulheres negras se sentem desvalorizadas, objetificadas, desumanizadas determina o escopo e a textura de suas relações de olhar. Assim, lança duas questões que são disparadoras para o desenvolvimento desse trabalho: Existe um olhar da mulher negra para o cinema? Como as mulheres negras se relacionam com a política de gênero na representação? Para investigá-las é importante ressaltar que a tentativa de definição de um olhar único da mulher negra frente ao cinema é um terreno perigoso. Tal análise precisa ser feita considerando determinadas nuances a fim de não cair em uma posição essencialista na qual se assume mulheres negras como vítimas da opressão racial e de gênero e que por isso, têm um campo de visão inerentemente diferente. Dessa reflexão surge uma terceira questão: Diretoras e roteiristas negras, a partir de suas experiências como espectadoras críticas, constroem relações de olhar que levam a contestação, resistência, interrogação e invenção de um futuro por meio de seus filmes?

Tendo como base a proposição de bell hooks acerca da experiência de espectadoras negras, a construção de um olhar de enfrentamento frente a narrativas cinematográficas hegemônicas e as discussões sobre representação racial, estereótipos e narrativa cinematográfica, essa pesquisa pretende debruçar-se sobre o trabalho de diretoras e roteiristas negras brasileiras contemporâneas. Tomo como recorte analítico o trabalho de jovens cineastas negras que têm produzido filmes ao longo da última década e que se lançam na produção de narrativas sobre a experiência negra. O recorte escolhido privilegia filmes de curta-metragem de ficção que tenham como protagonistas personagens negras. Entretanto, a análise não necessariamente focará somente na construção de tais personagens numa perspectiva individualizada, pretendendo abranger toda a linguagem cinematográfica proposta pelos filmes. Dessa forma, entram como objeto de pesquisa os filmes: Cores e Botas (2010), de Juliana Vicente; O Dia de Jerusa (2014), de Viviane Ferreira; A Boneca e o Silêncio (2015), de Carol Rodrigues; Kbela (2015), de Yasmim Thayná e Aquém das Nuvens (2011), de Renata Martins. Caso surjam outros filmes ao longo da pesquisa que se enquadrem dentro do recorte apresentado e contribuam para uma análise mais completa, serão adicionados.
Bibliografia

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