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  Título
Documentário, novela e vídeoarte: corporalidades em Televizinho
Autor
Esther Hamburger
Resumo Expandido
Essa apresentação se insere em uma pesquisa mais ampla sobre formas que desafiam divisores que reforçam discriminações relacionadas a inscrições corporais, como gênero e cor, e/ou a desigualdades sociais. Andreas Huyssen em After the great divide sugere de maneira bastante original que modernismo e cultura de massa são dois termos de uma oposição, e que, nessa condição, um termo não existe sem o outro. O modernismo se define na oposição à cultura de massa e vice-versa. Ao longo dos ensaios que constituem o livro, o crítico literário faz uma espécie de arqueologia do uso dos termos no final do século XIX e início do século XX. O autor versado na teoria crítica sugere associações produtivas entre essa polarização e outras dimensões da vida. A versão da coletânea publicada no Brasil 11 anos depois com o título de Memórias do modernismo, inclui o capítulo que associa a cultura de massa a termos como emoção, instabilidade e mulher. São termos aos quais a vanguarda opôs estratégias de distanciamento, colagem, montagem intelectual, teatro épico, entre outras. Huyssen identifica a potência da vanguarda no desafio ao divisor. Penso nos desenhos de Schiele, por exemplo, que questionavam a fronteira entre erotismo e pornografia. Na introdução à edição brasileira Huyssen vai além, ao reconhecer que a indústria cultural venceu a vanguarda ao incorporar suas estratégias estéticas. O autor adverte contra o esvaziamento dessas estratégias no âmbito alto modernismo. Em sintonia com as artes visuais contemporâneas, o autor valoriza a abordagem de processos artísticos, como alternativa a obras estanques.

Televizinho é interessante como obra-processo que se realiza ao mobilizar diferentes relações. Inspirada na sua memória de menina de classe média paulistana, branca, filha de mãe profissional e solteira, a artista propõe um trabalho de convivência com uma comunidade distante de sua cidade natal. A introdução do trabalho se dedica a descrever sessões em que a menina Veridiana convidava sua mãe a mimetizar cerimônias de refeição em novelas. A sequência de montagem de found footage contrasta com as re-encenações que se seguem. A convivência na comunidade inclui o ato de assistir novela nas casas das famílias que a hospedam, cada uma por vários dias seguidos, que culmina na encenação de trecho da novela. A encenação é filmada. O material captado foi montado em uma sequencia de episódios, cada um referente a uma encenação. Cada episódio é precedido de uma rápida apresentação das pessoas que participam e das relações que estabeleceram com o projeto. A introdução geral ao curta é uma sequencia reveladora das relações da diretora/performer com o gênero que trabalha nesse projeto: a novela.

Um pouco como as novelas que Madame Bovary lia no interior do romance de mesmo título, literatura feminina, considerada apelativa, romântica, novelas de televisão são folhetins eletrônicos associados às mulheres. Outro tipo de seriado, a soap opera norte-americana, já foi caracterizada como 90% feminino, em um meio tido como 60% feminino. No caso da novela de televisão brasileira, a associação com as mulheres não impede que o gênero seja compartilhado por homens e por pessoas de diferentes classes sociais. Flaubert provavelmente já intuía a artificialidade das divisões entre domínios alto e baixo, erudito e popular, masculino e feminino, como sugere sua conhecida auto-confissão: "Mme Bovary c'est moi".

Televizinhos é um trabalho experimental que permite problematizar a noção de gênero feminino tal como ela se relaciona com outras categorias classificatórias, ao mesmo tempo que questiona a indústria cultural em sua manifestação mais poderosa no Brasil (ainda hoje capaz de inverter a direção dos fluxos transnacionais de conteúdos). Ao contracenar com os participantes de sua pesquisa, Veridiana estimula um jogo de corpos que revela diferentes apropriações desse repertório compartilhado, mas de maneiras bastante desiguais.
Bibliografia

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