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  Título
Produção de presença nos filmes sobre periferias de Carlos Reichenbach
Autor
Geovany Hércules Mendes Limão
Resumo Expandido
A representação da periferia é um dos grandes focos de interesse do cinema

brasileiro. Geralmente entende-se que o termo periferia se refere às áreas ao redor de um

centro urbano e muita das vezes ele é empregado para se referir às favelas ou comunidades

que ocupam esse espaço. É comum também carregarem o sentido do termo de

negatividade por causa da notória desigualdade entre as áreas periféricas de uma cidade

em comparação ao seu centro, a precariedade da infraestrutura urbana somada à carência

de educação, saúde, segurança, cultura e opções de lazer, revelam o contraste das regiões

periféricas em relação aos bairros nobres (DOMINGUES 1995, p. 5). Muito do olhar que

o cinema brasileiro lançou para esse universo a partir do século XX, e principalmente

XXI, oscilou entre visões criminalizadas, marginalizadas, românticas e paternalistas da

periferia, várias delas bem-intencionadas, no entanto com problemas e ressalvas. Grande

parte dessas representações espelham mais o imaginário daqueles que as produzem,

deixando de representar a grande maioria das pessoas que vivem nesses espaços que,

mesmo inseridos numa realidade mais adversa, enfrentam essas dificuldades e buscam

viver com dignidade, não sendo apenas marginais, criminosas ou coitadinhas, mas

pessoas como todas as outras, trabalhadores e estudantes. É nesse último aspecto que

Carlos Reichenbach constrói sua visão.



Diretor plural e anárquico, Carlos Reichenbach (1945-2012) possui um estilo

idiossincrático marcado tanto pela despretensão quanto pela elegância. Leitor e cinéfilo

voraz, os seus filmes são marcados tanto por citações filosóficas e literárias quanto por

referências cinematográficas. O seu cinema é um cinema de extremos e paradoxos, sua

linguagem subversiva mistura o erudito e o popular, a poesia e o deboche. A sua trajetória,

que se inicia no fim dos anos 60, perpassa por diversos momentos importantes da história do cinema brasileiro, como Cinema Marginal, Boca do Lixo, Embrafilme, Retomada e

Contemporaneidade. O seu cinema contrabandista trabalhou com gêneros diferentes em

busca de subvertê-los para construir um cinema pessoal e autoral. Influenciado também

pelo cinema do italiano Valério Zurlini e dos japoneses, Shohei Imamura e Yasuzo

Masamura, outra de suas preocupações é o trabalho com o cinema da alma (LYRA 2004,

p. 26), cinema constituído pelos afetos e que trabalha com os sentimentos humanos,

originando filmes sensíveis e pungentes. Dentre os muitos temas que lhe são caros, como

utopia, anarquia, paraíso, subversão, erotismo, amores impossíveis, personagens

ambíguos, encontra-se também a figura do outro e as periferias.



Em filmes diferentes nas suas propostas e nos seus temas, como Lilian M –

Relatório Confidencial, Sonhos de Vida (curta, 1979), Amor, Palavra Prostituta, As

Safadas (episódio inicial A Rainha do Flipper, 1982), City Life (episódio Desordem em

Progresso, 1990) e Alma Corsária (1994), temos protagonistas femininas ou masculinas

e personagens coadjuvantes pertencentes às camadas populares e o que se percebe nessa

representação é um tratamento humanista, conforme vamos definir no decorrer desse

trabalho, que não julga ou determina claramente seus personagens, permitindo ao

espectador, antes de tudo, vê-los, quem sabe, ter empatia, o que entendemos por “olhar

de afeto”. No levantamento da sua obra observamos que esse olhar de afeto se estende

também a seus filmes que abordam o universo periférico pela perspectiva de suas

protagonistas femininas. Dessa forma, o objetivo desse artigo é mostrar como a trajetória

de vida de Carlos Reichenbach em São Paulo e sua formação cultural, principalmente

cinéfila, foram determinantes na construção de sua representação humana e afetiva das

periferias no seu cinema, para isso recorremos aos conceitos de Hans Ulrich Gumbrecht,

como produção de presença (GUMBRECHT 2010, p. 13), stimmung (GUMBRECHT

2014, pp.12; 17-20) e acoplagem (GUMBRECHT 1998, pp. 148-149).
Bibliografia

DOMINGUES, Álvaro. (Sub) úrbios e (sub) urbanos – o mal estar da periferia ou a

mistificação dos conceitos? Portugal: Revista da Faculdade de Letras – Geografia, Série

I, v. 11, 1995. p. 5-18.



GUMBRECHT, Hans Ulrich. Corpo e forma: ensaios para uma crítica não-

hermenêutica. Rio de Janeiro: Contraponto. Editora UERJ, 1998.



_______. Produção de presença: o que o sentido não pode traduzir. Rio de Janeiro. Contraponto. Ed. PUC-RIO, 2010.



_______. Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre um potencial oculto na literatura.

Rio de Janeiro: Contraponto. Editora PUC-RIO, 2014.



LYRA, Marcelo. Carlos Reichenbach: O cinema como razão de viver. São Paulo:

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.