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  Título
Narrativas do urbano nos cinemas africanos - Uma análise de "Félicité"
Autor
Ana Camila de Souza Esteves
Resumo Expandido
Articulada aos estudos sobre a experiência de cidade nos cinemas africanos contemporâneos, esta comunicação é parte de uma pesquisa mais abrangente que busca compreender as narrativas do urbano nesta cinematografia, voltando o olhar para as experiências do sujeito africano moderno narradas em seus filmes. Os dilemas da contemporaneidade, potencializados pelas práticas do cotidiano das grandes metrópoles, revelam uma cinematografia que nos permite pensar a África no mundo a partir da relação entre cidade e cinema, que tem se tornado objeto de investigação de muitos pesquisadores, com abordagens que vão desde representações do urbano no cinema, passando por análise de documentários que têm as práticas cotidianas das grandes cidades como tema, até a análise das narrativas urbanas ficcionais em espaços geográficos específicos.



A forma como é construído o cotidiano urbano dos indivíduos e dos grupos sociais que se formaram na modernidade se mostra importante para a apreensão dos modos pelos quais as vivências, comportamentos, identidades e práticas culturais do sujeito vêm sendo construídas. Nesse sentido, por meio da reflexão sobre a relação entre cidade e cinema é possível compreender o universo cinematográfico como espaço de construir ideias, conceitos, imagens e percepções que, de modo bem particular, apresentam, articulam e discutem aspectos da cultura urbana contemporânea. É o que aqui propomos fazer a partir da análise da narrativa do urbano em “Félicité” (2017), segundo longa-metragem do cineasta franco-senegalês Alain Gomis.



“Félicité” conta a história da heroína que dá nome ao filme, uma mulher mãe solo que trabalha como cantora num bar em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo. Sua vida é abalada quando o seu filho Samo de 14 anos é vítima de um acidente de moto e corre o risco de perder uma das pernas. Na esperança de conseguir dinheiro para o seu tratamento, Félicité percorre as ruas da cidade, de cima a baixo, em uma trajetória que envolve sua relação com a vida, com a música e com um homem chamado Tabu. Como em seu filme anterior, “Tey” (2013), em “Félicité” Alain Gomis constrói seus personagens a partir das suas experiências na cidade. O que está em pauta nos dois filmes é o cotidiano de pessoas comuns, sempre a partir de um acontecimento-chave que os orienta em uma determinada jornada. Dessa forma, acompanhamos os personagens em seus espaços de vida diários em paisagens que desvelam uma cidade urbana contemporânea, com seus contrastes e suas complexidades: moradia, bares, becos, hospitais, mercado, ruas e bairros sofisticados, bem como interesses escusos, abandono, descaso e pequenas lutas diárias.



A República Democrática do Congo é o segundo maior país africano em extensão, com uma média de 86 milhões de habitantes. Sua capital, Kinshasa, é a terceira maior cidade da África, atrás somente do Cairo (Egito) e Lagos (Nigéria), e é ainda a mais populosa cidade francófona do mundo, com cerca de 10 milhões de habitantes. Em “Félicité”, Kinshasa é construída a partir da angústia desta mãe, que não se furta de assediar seus conhecidos, do mais pobre ao mais rico, de literalmente cair no chão e se levantar, desvendando relações que se formam nas mais heterogêneas circunstâncias de cidades grandes e cheias de contrastes como esta. Kinshasa é, através da trajetória de Félicité, a moderna cidade do abandono, da solidão, mas também das pequenas esperanças.



Considerando que o filme é como o reflexo de uma apropriação do espaço urbano e seus discursos, construídos a partir da experiência urbana que se quer narrar, que histórias as grandes metrópoles contam? Que dilemas são enfrentados pelos personagens das grandes cidades e como esses dilemas são narrados no cinema? Os personagens fílmicos, como atores das próprias experiências, constituem uma construção poética da experiência do urbano a partir das suas práticas cotidianas, e é este caminho analítico que buscamos traçar a partir de “Félicité”.
Bibliografia

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