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  Título
A Virtude do Pragmatismo: analisando o melodrama em "House of Cards"
Autor
Giancarlo Casellato Gozzi
Resumo Expandido
“House of Cards” (Netflix, Beau Willimon, 2013-) é uma série conhecida por sua visão sombria da política institucional americana, aonde acordos de bastidores são mais decisivos que suas instâncias deliberativas ritualizadas, e aonde um político inescrupuloso, porém extremamente pragmático, consegue ascender até a Presidência sem sequer ser votado para o cargo. Pragmatismo político é algo positivado ao longo das 5 temporadas da série, seja pelo desenvolvimento da trama, aonde personagens pragmáticos são sempre mais bem-sucedidos politicamente do que aqueles preocupados com projetos e com alguma ideologia (sejam conservadores ou liberais), seja por meio de monólogos direcionados para o público (apartes), proferidos pelo protagonista da série, o deputado tornado Presidente Frank Underwood.

Contudo, algo que já vinha ocorrendo desde as primeiras duas temporadas de forma lenta é trazido ao primeiro plano a partir da terceira temporada, para de lá não mais sair: a partir da ascensão de Frank e sua esposa Claire à Casa Branca, seu pragmatismo dito "impiedoso" é contraposto ao pragmatismo de Claire, que vai se tornando mais moral na medida em que ela sente o peso das consequências de suas ações. Esta mudança a vai afastando das decisões de seu marido, na medida em que ela também vai se tornando mais popular do que ele, tanto dentro da política institucional quanto pelo público americano. Seu "pragmatismo com valores" vai se tornando mais politicamente viável do que o pragmatismo amoral de seu marido, algo que se concretiza na quinta temporada do seriado com sua própria ascendência ao cargo de Presidenta, enquanto Frank se vê exilado politicamente.

Tal polarização entre um "pragmatismo moral" e um "pragmatismo amoral" tem suas raízes no Melodrama, marcada pelo imperativo da legibilidade moral dos personagens (GLEDHILL 1987). Para a autora, o Melodrama, estrutura dramática que se consolida como uma forma narrativa extremamente popular na esteira da Revolução Francesa e do Iluminismo (BROOKS 1976), tem a função de promover valores morais em uma sociedade aonde a religião perdeu sua posição de promotora destes mesmos valores. Neste sentido, é uma estrutura narrativa extremamente adaptável e facilmente atualizável para o conjunto de valores que estiver em voga em um dado momento, mas que contudo depende de uma reafirmação clara destes valores por meio de polarizações, em que um conjunto de valores se localiza no campo do “Bem” e outro no campo do “Mal”. Ao contrapor os Underwoods com personagens extremamente idealistas nas primeiras temporadas, e a partir de dado momento repor essa polarização pela tensão entre o “Bom” pragmatismo de Claire e o “Mal” pragmatismo de Frank, o seriado aponta para sua “lição de moral”: pragmatismo é melhor do que idealismo, moral política (apesar de crucial) não pode se contrapor a um pragmatismo político de “fazer o que tem que ser feito” – ou seja, um moralismo à serviço de um pragmatismo, e não por si mesmo.

Essa interpretação dos temas por trás da série será posta a prova nesta apresentação por meio de uma análise textual principalmente da terceira temporada, mas levando em conta o desenvolvimento dela como um todo. A partir desta análise, pretendo demonstrar como o melodrama se encontra presente não só em “House of Cards”, mas é o modelo por excelência da indústria cultural, sendo uma estrutura presente em narrativas tão díspares tecnologicamente como Cinema, Televisão, Jornalismo e as mídias sociais (WILLIAMS 2012).
Bibliografia

BROOKS, Peter. "The Melodramatic Imagination. Balzac, Henry James, Melodrama and the Mode of Excess. New Haven: Yale University Press, 1976.



GLEDHILL, Christine. "The Melodramatic Field." In: Gledhill, Christine. (org.) "Home is Where the Heart Is." Londres: BFI, 1987, p. 5-39.



_____________________. "Rethinking Genre." In: Gledhill, C; Williams, L. (orgs.) "Reinventing Film Studies." Nova York: Oxford University Press, 2000.



WILLIAMS, Linda. "The American Melodramatic Mode." In: "Playing the Race Card: Melodramas of Black and White from Uncle Tom to O.J. Simpson." Princeton, NJ: Princeton University Press, 2001, p. 10-44.



_________________. "Mega-Melodrama! Vertical and Horizontal Suspensions of the 'Classical'." In: "Modern Drama", v. 55, n. 4, Inverno 2012, p. 523-543.



_________________. "On The Wire." Durham: Duke University Press, 2014.