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  Título
A montagem como gesto político: leitura do filme O Desolado
Autor
Vanessa Cordeiro Marques
Resumo Expandido
Inúmeros teóricos e artistas se debruçaram sobre o estudo e as práticas de imagem e montagem entre os séculos XX e XXI. Contudo, a reflexão sobre o tema vem ganhando um novo espaço no campo acadêmico a partir do filósofo e historiador da arte Georges Didi-Huberman. Para ele, a montagem se define como “uma exposição de anacronismos naquilo mesmo que ela procede como uma explosão da cronologia. A montagem talha as coisas habitualmente reunidas e conecta as coisas habitualmente separadas. Ela cria, portanto, um abalo e um movimento” (DIDI-HUBERMAN, 2016, p.6). Nesse sentido, pensaremos as imagens como cadeias ou constelações possibilitando uma construção do pensamento de acordo com determinadas combinações, junções e disjunções, aproximações e afastamentos, tomando a montagem como uma prática e, nesse caso, para além de uma etapa da produção fílmica.

O filme toma como dispositivo narrativo o livro de contos orientais As Mil e Uma Noites, partindo dele para recontar o momento histórico que os portugueses vivenciaram entre os anos de 2013 e 2014, marcados por uma política de austeridade. O realizador contratou um grupo de jornalistas, cuja missão era acompanhar as notícias na imprensa ao longo de doze meses, propondo ao “comitê central” – formado pelo diretor e roteiristas – quais temas seriam investigados. O comitê central selecionava as propostas dos jornalistas, que retornavam a campo para o aprofundamento da pesquisa. A partir desse apanhado, as histórias reais eram ficcionalizadas e ilustradas no site servindo de base para o roteiro cinematográfico. Com isso, tomamos o método de trabalho utilizado por Gomes como questão central dessa análise, na medida em que ele é em si uma prática de montagem, e, por isso, uma forma de construção do pensamento. A atmosfera do filme surge da atualização diária dos relatos, da pesquisa de campo, cujo o objetivo é captar o cotidiano dos portugueses naquele ano, quando questões econômicas, políticas e sociais eram temas urgentes em Portugal.

Essa abertura possibilitou um processo contínuo de modelagem estética, na medida em que todas as decisões eram tomadas a partir dessas conjunções e interferências relativas à pesquisa. A equipe do filme era colocada, dessa forma, em um processo constante de instabilidade, já que a cada dia era possível se deparar com um fato novo, adicionar uma nova peça e se deslocar para um outro espaço, como na montagem de um quebra-cabeças à maneira do texto árabe clássico.

A montagem, aqui, será pensada em dois aspectos. O primeiro abarca um sentido mais amplo, o caráter filosófico das imagens, em que a imaginação é tomada como potência de “múltiplos”, com o qual a montagem sugere uma “abertura” e uma infinidade de leituras, afim de emergir uma cadeia de novas combinações imagéticas e sonoras. (DIDI-HUBERMAN). O segundo aspecto diz respeito às práticas da montagem cinematográfica propriamente dita, relacionadas entre os planos, entre som e imagem, avaliando o alcance mnêmico de figuras de montagem recorrentes no cinema político contemporâneo como o raccord e o intervalo, por exemplo.

Dito isso, nos interessa investigar como essa prática de montagem vai operar no filme, através do agenciamento de seus elementos heterogêneos, como a utilização do livro como dispositivo narrativo, os fatos concretos ocorridos em Portugal, o cenário, a escolha dos atores e não-atores, e de um embaralhamento das fronteiras entre real e ficcional. Cabe pensar, a partir desses elementos, em que medida esses filmes produzem um certo desacordo e uma “ruptura nas formas sensíveis da comunidade” (Rancière) forjando novos modos de vida.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Lisboa: Ed. Presença, 1993.

BENJAMIN, Walter. ________________. N – Teoria do conhecimento, teoria do progresso. In: Passagens. Belo Horizonte. Ed. UFMG, 2009.

DELEUZE, Gilles. Cinema II: a imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Como abrir los ojos. In: FAROCKI, Harun. Desconfiar de las imaégenes. Buenos Aires: Caja Negra, 2013.

________________________. Remontar, remontagem do (tempo). Texto original publicado na Revista Étincelle (Faísca) Ircam do Centre Pompidou. 2007.

GOMES, Miguel. A ouvir os pássaros. Entrevista realizada por Fabian Cantieri, Juliano Gomes e Pedro Henrique Ferreira. IMS, Rio de Janeiro, 2016.

RANCIÈRE, Jacques. O dissenso. In: A crise da razão. Organizado por Adauto Novaes São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o Tempo. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2010.