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  Título
O relato pessoal no documentário em primeira pessoa
Autor
Raquel Valadares de Campos
Resumo Expandido
Como filmar o vazio? Como tornar presente o que está ausente na imagem? Diante da impossibilidade da representação do trauma e da catástrofe, o que fazer? Ou, como disse Lúcia Murat em ambos prólogo e epílogo de seu documentário em primeira pessoa, Uma Longa Viagem (2012): “O que fazer diante da morte se não chorar ininterruptamente?”. Um filme?

A meu ver, a chave capaz de ressignificar a imagem presente e presentificar o passado, advinda sobretudo da teoria literária, é a narrativa testemunhal, baseada no relato de um eu que estava lá, viu, viveu e sobreviveu para contar (RICOEUR).

Interessa-me, sobretudo, o cinema documentário em primeira pessoa realizado por testemunhas superstes, ou seja, realizado por sobreviventes. Cineastas como, dentre outros, Lúcia Murat, Rithy Panh e Patricio Guzmán, cujos filmes tentam comunicar a sua própria experiência traumática – da tortura, da prisão, do trabalho forçado, do exílio e da perseguição política – inscrevendo, assim, as marcas da violência de Estado (SELIGMANN-SILVA) em contra-narrativas engajadas politicamente e alinhadas à história dos vencidos (BENJAMIN).

Pretendo trazer ao painel um recorrente recurso de linguagem desse cinema documental em primeira pessoa, as cenas em que o realizador sobrepõe ao restos e vestígios contidos na imagem do presente, a camada discursiva do seu relato pessoal, apontando para o que certa vez existiu ali – ou seja, operando na chave da referencialidade (NICHANIAN) e não da representação do real, em que o testemunho serve de índice do invisível da imagem e do inexprimível do acontecimento.

A proposta é refletir sobre a potência desse recurso cinematográfico no que consiste em “olhar as coisas de um ponto de vista arqueológico”, ou seja, em “comparar o que vemos no presente, o que sobreviveu, com o que sabemos ter desaparecido” (DIDI-HUBERMAN) a partir da lógica discursiva da primeira pessoa, quando ela relata a si mesma (BUTLER) a partir da sua memória narradora (CAVARERO). Para além do pacto de credibilidade (PIEDRAS), o que está em jogo é a criação de uma presença e de um espaço de escuta, necessariamente dialógico, com o espectador, que pode então imaginar o que lá tenha ocorrido.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Magia e tecnica, arte e politica: ensaios sobre literatura e historia da cultura. Brasiliense, Sao Paulo, 2012.

BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: critica da violencia etica. Traducao: Rogerio Bettoni. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2015.

CAVARERO, Adriana. Relating narratives. Traducao: Paul A. Kottman. Londres e Nova Iorque: Routledge, Edicao eletronica, 2006.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Cascas. Traducao: André Telles. Sao Paulo: Editora 34, 2017.

NICHANIAN, Marc. The historiographic perversion. Tradução: Gil Anidjar. New York: Columbia University Press, 2009.

PIEDRAS, Pablo. El cine documental en primer persona. Buenos Aires: Paidós, 2014.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução: Alain François. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Ficcao e imagem, verdade e historia: sobre a poetica dos rastros. In Dimensões, vol. 30, 2013, pp. 17-51.