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  Título
Notas do cinema brasileiro pós-golpe e a crise discursiva
Autor
Lia Bahia Cesário
Resumo Expandido
O que filmar? Como filmar? O que demandar do Estado? Como se posicionar, enquanto corpo político, em um tempo de tantas urgências? Estas são perguntas que circulam entre os agentes do cinema no Brasil pós-golpe de 2016. Para Rancière (2012), existem dois significados da palavra política para o fazer cinema: a política como aquilo que trata o filme – a temática – e a política como estratégia própria da operação artística.

Os governos do PT concentraram expectativas de inflexão do ciclo neoliberal dos anos 1990. A partir dos anos 2003, houve inquestionáveis avanços no combate às desigualdades e discriminações. O reconhecimento de direito dos grupos populacionais e identitários, antes excluídos, inspiraram a revisão do fazer e pensar o audiovisual no contemporâneo.

Políticas públicas setoriais foram elaboradas visando a ampliação e o direito democrático ao audiovisual: estruturação do fomento via editais públicos, a descentralização da produção do eixo Rio-SP para outras regiões do Brasil; a política de cotas; o crescimento dos coletivos localizados em regiões periféricas, novos processos de produção e difusão, entre outras práticas ampliaram o escopo e acesso ao cinema nacional.

A própria ideia de difusão foi alterada. A velha proposta de “levar o cinema nacional” para locais sem acesso a um certo tipo de produção passou a ser problematizada. A disputa hoje não prescinde do corte territorial para que distribuição de recursos avance e assim estimule festivais promovidos por agentes locais (Brasil, 2010). Como afirma Dagnino, “o reconhecimento da disputa simbólica como constitutiva de toda disputa política” (2016) tornou-se uma premissa para o audiovisual brasileiro.

Essas conquistas, contextualizadas pelo aprofundamento da construção democrática, demandaram revisões permanentes nas políticas públicas e nos modos de realização do audiovisual no contemporâneo. Rancière lembra que uma arte nunca é apenas uma arte, sempre é, ao mesmo tempo uma proposta de mundo (idem). Com os acontecimentos de 2016, os retrocessos nos diretos conquistados atingiram as políticas sociais, culturais e cientificas. No espaço audiovisual esses processos de retração, se expressaram de forma mais visível, em programas governamentais e discursos oficiais, de caráter excludente, tanto pela adoção de referencial conceitual – cultura atrelado à dimensão empreendedora – quanto prático – mudanças no regulamento do FSA, favorecendo a dimensão mercadológica da obra.

Em contraponto, ao longo destes dois anos, foram organizados atos públicos e redigidas cartas, assinadas por pessoas físicas ou entidades representativas do setor, com distintos formatos e conteúdos. Entender de forma dialética as cartas e atos contrários às mudanças impostas pelo governo ilegítimo revela o lugar da luta pela ampliação de direitos; mas também, a necessidade de preservar status pretérito, delineando os contornos de uma crise discursiva.

Dagnino observa como, com os governos petistas, os movimentos culturais incluídos, tiveram que se "profissionalizar" rapidamente para acessar recursos públicos de disponibilidade e distribuição inédita. Desse processo, resultaram híbridos militantes/profissionais, por vezes pendendo de maneira açodada para o segundo termo, gerando ambiguidades, contradições e crises discursivas (idem).

Uma das principais críticas é que, talvez os cineastas e produtores culturais estejam demasiado apegados às autoridades mesmo quando golpistas. Demasiado apegados mesmo quando eles as taxam de golpistas. Sobre como escrever e ler cartas, com ou sem adjetivos.

Os debates e os discursos estão vivos e precisam ser problematizados e aprofundados após o impeachment. Os diferentes modos de realização e circulação de filmes como Martírio, Arábia, Escolas em luta, Autos de Resistência e O Processo formam uma pequena amostra da urgência e potência para se repensar e reinventar a prática do cinema na tessitura da estrutura social, cultural, política e econômica do país.
Bibliografia

BAHIA, Lia. Discursos, políticas e ações. São Paulo: Itaú Cultural e Iluminuras, 2012.

BRASIL. Lei nº 12.343 - Plano Nacional de Cultura, 2010.

CARTAS, Berlim, Gramado, Minc, FSA, 2016-18.

COUTINHO, Angélica, SANTOS, Rafael (orgs.). Políticas públicas e regulação audiovisual. CRV: Curitiba, 2012.

DAGNINO, EVELINA. State-society relations and the dilemmas of the new developmentalist State. IDS Bulletin, v. 47, p. 157-167, 2016.

DIRETORES e PRODUTORES. Carta de Berlin, 2017. Disponível em http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT84603.

LEITÃO, Sérgio Sá. Um novo olhar sobre a cultura. In Folha de São Paulo, 07.12.2017.

MIGLIORIN, Cezar. Por um cinema pós industrial. In Cinética, 2011.

RANCIÈRE, Jacques. As distâncias do Cinema. Rio de janeiro: Editora Contraponto, 2012.

SCHVARZMAN, Sheila. O cinema contemporâneo brasileiro de grande público e a crise brasileira. REVISTA - O OLHO DA HISTÓRIA, v. 1, p. 1-18, 2016.

ZAVERUCHA, Vera. Desvendando a Ancine. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 2017.