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  Título
Produção de audiovisuais brasileiros da década de 1970
Autor
Rosane Andrade de Carvalho
Resumo Expandido
Na década de 1970, muitos artistas brasileiros desenvolveram pesquisas utilizando diapositivos como filmes em super-8 ou 16mm, fotografia, vídeo, audiovisuais, dentre outras. Tal produção, dada a utilização de meios não convencionais para o período, como também seus diferentes processos de produção e modos de apresentação, foi tida como experimental. Segundo a historiadora Ligia Canongia (2005, p. 55), “o termo `experimental´ servia tanto para designar a livre experimentação com novas mídias e novos procedimentos, quanto para pontuar a experiência sensível, que passa necessariamente pelo corpo”. É relevante lembrar que os anos 1970 são marcados pelas forças impositivas do regime militar implantado em 1964, que instalou no país um clima de turbulência social e política. Esse contexto repercutiu no meio artístico provocando posicionamentos opositivos ao sistema vigente por parte de muitos artistas. É nesse contexto repressivo política e socialmente, mas efervescente artisticamente, que as experimentações criativas com os novos meios se desenvolveram. Destaco a produção de audiovisuais, objeto de minha pesquisa de doutoramento, na qual tento compreender o processo de constituição do audiovisual como novo meio de produção e expressão artística na arte brasileira da década de 1970, como também analisar a inserção do sistema audiovisual no contexto das discussões acerca do uso das novas tecnologias também denominadas de novos meios e multimeios. Para tanto, estabeleci um corpus de análise que inclui os artistas Beatriz Dantas (1949), Paulo Emílio Lemos (1949), Frederico Morais (1936), Letícia Parente (1930-1991) e Paulo Fogaça (1936). Ao me referir aos audiovisuais no contexto das artes visuais da década de 1970, o faço remetendo ao sistema de projeção de diapositivos, dispostos em carretel, sincronizados ao som - música, ruídos, diálogos, narrações e outros – e gravados em fita cassete. No Brasil, Frederico Morais realizou, em 1970, os audiovisuais Memória da paisagem e O pão e o sangue de cada um, ambos premiados no II Salão Nacional de Arte Contemporânea, realizado no Museu de Arte de Belo Horizonte, demarcando, desse modo, a inserção do audiovisual como um novo meio de realização artística em solo brasileiro. Em 1971, Morais realiza “Cantares”, que, segundo ele, teve “[...] a preocupação de afirmar a especificidade do audiovisual como linguagem.” (1973 apud FERREIRA, 2006, p.392). Aracy Amaral também teve contribuição relevante naquele contexto da produção experimental com novos meios, organizando junto ao GRIFE (Grupo e Realizadores Independentes de Filmes Experimentais) a “Expoprojeção” (São Paulo, 1973), a qual reuniu propostas com som, audiovisual, super-8 e 16mm. Nessa exposição, Beatriz Dantas e Paulo Lemos apresentaram Terra e Matadouro; Paulo Fogaça, Ferrofogo e Bichomorto e Frederico Morais as obras O júri, Bachelardianas e Cantares. Essa mostra foi reeditada em São Paulo em 2013. Agrego Letícia Parente ao conjunto de artistas estudados inicialmente com o audiovisual “Eu armário de mim” (1975). A partir dos audiovisuais produzidos pelos artistas selecionados para a minha pesquisa de doutoramento investigarei os diferentes modos, usos e funções que os mesmos assumiram na produção de arte brasileira daquela década, assim como a inserção do audiovisual como novo meio de expressão artística e suas possíveis contaminações com outras linguagens. Até o momento é possível afirmar que esse conjunto de trabalhos guardam entre si o mesmo interesse pelas possibilidades variadas do audiovisual, contudo, as funções se diferem; ora funcionam como registro de trabalhos, ora como meio de expressão ou linguagem. Bichomorto e Hieróglifos são dois audiovisuais realizados em 1973 pelo artista Paulo Fogaça que serão apresentados e analisados na comunicação proposta. Esses trabalhos exemplificam um tipo de produção que conjuga o experimentalismo com os novos meios e a reflexão sobre o contexto social e político brasileiro da década de 1970.
Bibliografia

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