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  Título
Esticando o som para ajudar os ouvidos a sentir
Autor
Filipe Barros Beltrão
Resumo Expandido
As transformações no áudio digital abriram novos horizontes para a criação artística nos vários campos do som no cinema. Da captação a reprodução sonora todos os agentes da cadeia produtiva foram impactados pelas possibilidades oriundas da digitalização. A quase infinidades de pistas possíveis nas sessões de edição e mixagem, as facilidades de edição e manipulação do áudio, a precisão no tratamento do som, e a multiplicidade de efeitos possíveis geraram o arcabouço que envolve o contexto atual do som no cinema. No entanto, a consolidação deste cenário não impede a evolução do mesmo, a partir de novos artifícios e ferramentas de processamento. No presente artigo, iremos falar sobre os algoritmos que permitem manipular a altura e a duração som, conhecidos como time stretching e pitch shifting (WOODHALL, 2010), como eles tem sido usados na busca por novas sonoridades e como estão influenciando os processos criativos. Neste trabalho, abordaremos especificamente como essa questão vem abrindo novos horizontes para a composição de trilhas musicais. Os algoritmos de manipulação da altura e duração estão presentes na quase totalidade dos softwares de áudio disponíveis no mercado. Em cada “estação de trabalho de áudio digital” (DAW – Digital Audio Workstation) essa funcionalidade recebe um nome diferente: elastic audio (Pro Tools), flex time (Logic Pro), warp (Ableton Live), no entanto elas têm a mesma função de manipular a duração do som sem interferir na altura dele, e manipular a altura do mesmo sem alterar a sua duração. No universo dos softwares de áudio vale citar o caso do “Paul's Extreme Time Stretch” que funciona em forma aplicativo e plug-in possibilitando manipulações extremas do som, podendo transformar um áudio de minutos, em sons que podem durar horas ou dias, com um resultado sonoro característico que abre uma rica camada perceptiva, impossíveis de atingir de outra forma. Esse novos artifícios foram construindo um ambiente de exploração de sonoridades originais que não é acessível aos instrumentos convencionais e pela captação sonora padrão. No artigo de Murch (2000), um dos pilares do sound design e da criação sonora no cinema, ele destaca os avanços inexoráveis do áudio digital e como o cinema deveria “esticar” as suas possibilidades criativas (2000). O título deste artigo é uma referência ao texto de Murch (Stretching Sound to Help the Mind See) e a ironia do desenvolvimento dos processos criativos do som no cinema que se transformam a partir das ferramentas de time stretching. No universo das trilha musicais do cinema alguns trabalham nos chama atenção pelo uso dessa ferramenta. O filme A Origem (Inception, Christopher Nolan, 2010) dento do universo hollywoodiano hegemônico com trilha musical assinada por Hans Zimmer; e o filme nacional “O ano em que meus pais saíram de férias” (Cao Hamburguer, 2006) e a série brasileira “Destino: São Paulo” (Teodoro Poppovic, Fábio Mendonça, 2012) ambos com músicas de Beto Villares. No caso de Beto Villares, as ferramentas de stretching são utilizadas para gerar novos sons de instrumentos, manipulando os áudios gravados gerando sons familiares, mas que não podem ser produzidos pelos instrumentos acústicos. Tal procedimento, é encontrado na trilha da série “Destino: São Paulo” quando ele diminui a altura do violão de nylon em uma oitava, causando um certo estranhamento com o timbre. No caso de Zimmer, temos uma utilização mais extrema se utilizando de elementos da introdução da música “Je ne Regrette Rien” de Édith Piaf (SIGRIST, 2012). O tema que aparece no filme é reprocessado de várias maneiras com sua altura alterada, modificando totalmente as características do som, gerando leitmotiv que se integra perfeitamente ao universo onírico e de imersão apresentado pela narrativa (DIETERT, 2013). O time stretching vem criando um novo universo criativo nas trilhas musicais e abrindo um lastro de influência no estilo dos compositores.
Bibliografia

DIETERT, Rodney; DIETERT, Janice. Science sifting: tools for innovation in science and technology. New Jersey: World Scientific, 2013.

GORBMAN, Claudia. Unheard melodies: narrative film music. Blommington: Indiana University Press, 1987.

ITZFOFF, Dave. Hans Zimmer Extracts the Secrets of the ‘Inception’ Score. New York Times July 28, 2010. Disponível em: . Acesso em: 20 jul. 2017.

MURCH, Walter. Stretching Sound to Help the Mind See. New York Times, New York, October 1, 2000. Disponível em: . Acesso em: 20 jul. 2014.

SIGRIST, Michael. Dream time: inception and the philosofy of time. In: JOHNSON, David Kyle. Inception and philosophy: because it’s never just a dream. New Jersey: John Wiley & Sons, 2012.

WOODHALL, Woody. Audio Production and Postproduction. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2010.