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  Título
Hello World! Regime de atração e retórica da novidade no i-doc
Autor
Gianna Gobbo Larocca
Resumo Expandido
“Hello World!” é o nome de um popular procedimento de teste em programação, cuja função, tecnicamente elementar, é transformar algumas linhas de código na “aparição” da sugestiva frase – “Hello World!” – em um dispositivo de saída (ou seja, qualquer tipo de tela). Frequentemente utilizado como primeiro exercício no aprendizado de várias linguagens de programação, os códigos são escritos de forma minimalista, de modo a encobrir o “truque” e, como em um ritual de iniciação, colocar o noviço diante de uma espécie de aura, a um só tempo, científica e mágica, da conexão de um comando input e sua resposta output. “Hello World!” indica simbolicamente um aceno e a passagem encantada entre mundos virtual e físico.

Este exibicionismo das propriedades interativas pode soar um pouco ingênuo atualmente, dada a expansão das mídias digitais no cotidiano contemporâneo. Mas sua aparente gratuidade e efeito de deslumbramento são características estéticas que obstinadamente aparecem e reaparecem animando as interfaces interativas. As interfaces dos documentários interativos (i-docs) não são uma exceção, a despeito das expectativas de sobriedade que o gênero pode inspirar. As exuberantes aberturas dos i-docs "The Whale Hunt" (Harris, 2007), "I Love Your Work" (Harris, 2013) e "Universe Whitin" (Cizeck, 2016) são exemplos de um partido estético fundamentado menos em necessidades narrativas e mais no encantamento decorrente da relação espetacularizada input-output, que marca a entrada do espectador-usuário na conformação da imagem. Valorizando a dimensão mágica e de novidade tecnológica do aparato, ecoam sem parar: “Hello World!”

Não obstante, a literatura sobre o gênero (O’FLYNN, 2012; GAUDENZI, 2013; MURRAY, 2003) parece travar uma batalha contra essas ocorrências recalcitrantes. Em nome de um agenciamento ideal, ou seja, que proporcione a um só tempo a imersão na narrativa proposta e controle (ou ilusão de controle) ao usuário, estas análises frequentemente prescrevem a transparência dos recursos interativos, em uma visão mais utilitária destes, ou o investimento em uma experiência do usuário prazerosa, contanto que subserviente à economia narrativa.

Se tais prescrições são relevantes, na medida que informam práticas e horizontes para os i-docs, os recorrentes recursos exibicionistas que parecem querer extirpar, não podem ser considerados como “tropeços” ou meros experimentos em um gênero incipiente ou “incunabular”, no termo empregado por Murray em meados dos anos 1990. Pelo contrário, sua persistência indica um tipo de endereçamento ao público consistente em seu próprio regime estético.

Ademais, segundo propomos, eles apontam também para a permanência de uma tradição enraizada na história do cinema. Esta tradição vincula-se ao regime de “atração” cunhado por Tom Gunning (1990) para abordar as heterogeneidades do cinema então emergente na virada dos séculos XIX e XX em relação ao cinema narrativo posteriormente hegemônico. As tendências exibicionistas, francamente dirigidas ao espectador e alheias à gramática da representação e do enclausuramento diegético do Cinema de Atrações reverberam em uma variedade de propostas interativas em i-docs. Também é significativo o forte apelo tecnológico deste regime e compartilhado, nesta virada de século mais recente, pelo deslumbramento diante do aparato digital.

Tal associação não escapou a Jonathan Crary (2013), que aponta o papel da “tecnologia da atração” na definição de novos modos de fascínio visual e de consumo voltados a atrair a atenção do público. Gunning, por sua vez, procura sublinhar a potência da estimulação sensorial direta do público a da confrontação exibicionista no lugar da absorção diegética. Estendendo o conceito de atração como chave de leitura para as estratégias exibicionistas em i-docs, buscamos analisar esse duplo papel de endereçamento sensacionalista ao público e de inserção tecnológica dentro de uma tradição do cinema e sua remodulação nos documentários interativos.
Bibliografia

COSTA, F. C. O primeiro cinema: espetáculo, narração, domesticação. São Paulo: Scritta, 1995.

CRARY, J. Suspensões da percepção. Atenção, espetáculo e cultura moderna. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

GAUDENZI, S. Interactive Documentary: Towards an Aesthetic of the Multiple. Tese. Londres: University of London, 2013.

GUNNING, T. The Cinema of Attractions: Early Film, its Spectator and the Avant-garde. In: ELSAESSER, Thomas. Early cinema: space-frame-narrative. Londres: British Film Institute, 1990, p. 56-62.

LEVIN, T. Narrativa e interatividade no webdocumentário. Tese. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2016.

MACHADO, A. O sujeito na tela. Modos de enunciação no cinema e no ciberespaço. São Paulo: Paulus, 2007.

MURRAY, J. Hamlet no Holodeck – O futuro da narrativa no ciberespaço. São Paulo: Unesp, 2003.

O’FLYNN. S. Documentary’s metamorphic form: webdoc, interactive, transmedia, partipatory an beyond. In: Studies in Documentary Film, 2012, pp.141-157.