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  Título
Devir histórico e imagens arquivo: Retratos de Identificação
Autor
Raquel do Monte Silva
Resumo Expandido
Partindo do filme Retratos de Identificação (2014), dirigido por Anita Leandro, buscamos cartografar uma constelação de imagens que colocam em narrativa a experiência histórica vinculada à Ditadura Militar no Brasil e aos processos de repressão. Para tanto, lembramos de Arlette Farge (2009), uma historiadora francesa especialista no século XVIII, para pensar duas questões: a relação com os arquivos e como o gesto do historiador pode dar conta do sofrimento, das “suspensões trágicas da felicidade”. No documentário, encontram-se o rescaldo de 1968, o “curto ano de todos os desejos”. Deste modo, consideramos que o cinema é um portal que reverbera uma forma de pensamento, tudo materializado no campo das imagens e da linguagem fílmica. Sendo assim, reencontrarmo-nos com a história evocada na narrativa construída pela realizadora é refletir também sobre as memórias e o dispositivo construído. O filme Retrato de Identificação reflete uma experiência singular dentro da cinematografia brasileira que dialoga com o período da ditadura militar e, em especial, com os eventos ocorridos pós 13 de dezembro de 1968, data da emissão do decreto Ato Institucional de Número 5, o AI-5 . Neste sentido, a hipótese que norteia nossas reflexões, considera que os episódios de perseguição, tortura, prisão e morte trazidos à tona no documentário ecoam o espírito da resistência de 68. O desejo de imergir nesse passado histórico é o gesto inicial do filme de Anita Leandro, já que ele é calcado na reconstituição da memória de quatro personagens: Antonio Roberto Espinosa, Maria Auxiliadora, Chael Schreier e Reinaldo Guarany, vítimas do regime militar brasileiro (1964-1985). Os três primeiros do grupo integravam a resistência armada VAR-Palmares e Reinado era membro da Ação Libertadora Nacional. Maria Auxiliadora, codinome Chica, é o ponto de contato entre os três outros estudantes. Retratos de identificação é concebido visualmente a partir da aparição na tela dos documentos oficiais, legados do Estado repressor, - fotografias, mug shots, laudos, inquéritos policiais, etc – e da presença dos personagens (através da presença física, quer seja ela em voz over ou através do enquadramento frontal) que acrescentam uma nova camada de significado às imagens, impregnando-as de um novo estrato sensível e possibilitando um mergulho testemunhal naquele momento histórico que se constitui uma ferida aberta no imaginário brasileiro. Narrativamente o filme é dividido em três partes – apresentação dos personagens e ocasião da prisão, a tortura e os momentos pós-prisão. Logo nos primeiros planos percebemos através da tela preta, que acolhe a aparição dos documentos oficiais e que simbolicamente representa o luto para nós, o quanto a atmosfera de dor e morte é presentificada na construção da cronologia que o filme institui. Para disparar a aparição das narrativas em torno das prisões, mortes e torturas que envolvem as vidas daqueles estudantes, o dispositivo apresentado para o processo de construção da narrativa dá-se na dobra esboçada a partir do encontro das fotografias, ou melhor dizendo, dos retratos de repressão com as duas pessoas que sobreviveram, Reinaldo e Roberto. Tal gesto fratura o modo clássico de se construir narrativas no documentário, tendo em vista que o uso da entrevista e os lugares de entrevistado e entrevistador integram a gramática fílmica e o desejo de se gotejar o real. Neste caso, então, é o encontro com o arquivo que dispara o processo que se constitui como o leitmotiv do documentário. Dito isso, informamos que trabalharemos com uma epistemologia construída a partir da fricção dopensamento de George Didi-Huberman, Walter Benjamin e Jean-Louis Comolli, considerando que eles reverberam ideias e conceitos ligados à significação das imagens, o campo do documental e o fazer histórico. Do ponto de vista metodológico, nossa aproximação com o objeto de estudo irá se ancorar nos escritos de Arlette Farge e como podemos nos relacionar com os arquivos.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Crisis de la novela. Sobre “Berlín Alexanderplatz” de Döblin. 1930. Acesso em: 01/02/2018. Disponível em:

https://www.academia.edu/5019213/Walter_Benjamin_1930_Crisis_de_la_novela._Sobre_Berlín_Alexanderplatz_de_Döblin

________. O anjo da história. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012a.

________. Paralipómenos y variantes. In: Escritos franceses. Buenos Aires: Amorrortu, 2012b.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Cuando las imágenes tomam posición. El ojo de la historia, 1. Madrid: A. Machado Libros, 2008.

________. Pueblos expuestos, pueblos figurantes. Buenos Aires: : Manantial, 2014.

FARGE, Arlette. O sabor do arquivo. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009.

_____________. Lugares para a História. São Paulo: Autêntica, 2011.