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  Título
Getty Images – Banco de dados e Montagem de filmes publicitários
Autor
Guilherme Bento de Faria Lima
Resumo Expandido
Em um período marcado pela contínua atualização tecnológica, pela proliferação das câmeras digitais e pela democratização e barateamento dos softwares de edição não-linear, parece ser fundamental investigarmos as opções estéticas de utilização e, principalmente, de reutilização das imagens contemporâneas através de uma perspectiva de arqueologia da mídia, como apresentado por Wolfgang Ernst.

Surgem, assim, novos desafios e novas oportunidades no que tange o tratamento e a curadoria de imagens. Como o próprio Manovich aponta em seu artigo "Metadata, Mon Amour", não significa deixar de lado as questões semióticas e hermenêuticas, mas recalibrá-las. Torna-se essencial observar a larga escala do banco de dados (database) de imagens disponíveis, ao invés de uma única imagem. Para elucidar sua perspectiva, o autor russo utiliza como exemplo três filmes – Close-up (Antonioni, 1996), Blade Runner (Scott, 1982) e Minority Report (Spielberg, 2002) – e destaca a relação dos protagonistas com as imagens. Nos dois primeiros filmes há a observação detalhada (reenquadramentos e reposicionamentos) de apenas uma única imagem, enquanto no terceiro filme o personagem busca por informações através da combinação de imagens disponíveis em um banco de dados. “The message is clear: by itself, a single image is useless – it only acquires significance in relation to a larger database.” (Manovich, 2002, p.4).

Desta maneira, partindo do princípio que os bancos de dados podem funcionar como um repositório de memória coletiva que, por sua vez, pode vir a impactar no enorme acervo eletrônico audiovisual utilizado nas práticas publicitárias atuais, de que maneira as imagens disponibilizadas pela Getty Images, por exemplo, afetam o mercado publicitário? Como consequência, quais são as características específicas e diferenciais de um arquivo, de um banco de imagens e de uma coleção?

No contexto de multiplicidade imagética os conglomerados de mídia e a própria publicidade vivenciam novos paradigmas e buscam por novas estratégias para estabelecer pontos de contato com o novo consumidor e novas linguagens narrativas para estimular o diálogo e o envolvimento com as marcas, de forma geral. A persuasão publicitária vai aos poucos transformando-se em entretenimento interativo.

Os bancos de dados audiovisuais crescem, justamente, por conta da lógica arquivista de acúmulo de conteúdo favorecida pelas novas tecnologias. Lev Manovich aponta a existência de inúmeros objetos midiáticos que sequer contam histórias, que parecem funcionar apenas como coleções de itens individuais sem qualquer tipo de organização hierárquica entre seus elementos. Propõem, entre outras estratégias, uma nova metodologia de visualização de imagens que é marcada, essencialmente, pela multiplicidade e que possibilita novas investigações de arranjos e montagens não-lineares.

É precisamente sobre os “objetos midiáticos” apontados por Lev Manovich que parece ser importante se debruçar e refletir criticamente. A coleção de itens audiovisuais que alguns profissionais de publicidade buscam utilizar como fonte de trabalhos criativos e premissas estéticas de suas narrativas torna-se, assim, objeto central do artigo aqui proposto.

As fissuras e as incompletudes das imagens são expostas em novos arranjos e novas montagens publicitárias. Logo, seria possível pensar o cenário contemporâneo a partir de uma reconfiguração tecnológica que se processa e se evidencia na linha de montagem e na escolha de imagens através dos thumbnails, como por exemplo em três campanhas institucionais da Getty Images elaboradas pela AlmpBBDO (uma das principais agências publicitárias do Brasil).

Sendo assim, este trabalho pretendo discutir, analisar e problematizar as imagens utilizadas e o processo de realização dos filmes; "From Love to Bingo", "Endless Possibilities - Getty Images" e "85 Seconds" como uma estratégia para pensar novas práticas de montagem e de comunicação publicitária em um cenário marcado pelo digital.
Bibliografia

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ERNST, Wolfgang. Digital Memory and the archive. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2013.

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