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  Título
Ora direis, ouvir histórias...(O banal e o extraordinário em...)
Autor
denise tavares da silva
Resumo Expandido
Na poética do cotidiano, à melodia entoada forte e generosamente pelo taxista em cena, segue a fala que lembra um poeta espanhol, para quem o Peru era feito de “metal e melancolia”. Cobrado pela diretora do documentário, Heddy Honigmann, sobre o significado deste dístico, a voz soa tranquila e assertiva: “Talvez porque a dor a e pobreza nos deixem mais duros, como a dureza dos metais; e a melancolia é porque também somos meigos, sentimos falta dos tempos melhores, perdidos em nosso esquecimento...”. A conversa gerou o título do documentário de 53 minutos que se estrutura nas perambulações da diretora dentro de diversos táxis que percorrem as ruas de Lima. Neste lugar, ela pouco olha as ruas esburacadas da capital do Peru, país que em 1994 vivia uma das suas mais graves crises econômicas. O que lhe interessa são as histórias da sobrevivência nestes tempos duros quando ser taxista significou completar a renda mínima para seguir vivo. (E aqui vale um parêntesis: como não lembrar o papel do Uber, hoje, neste Brasil de crise econômica, política e social tão profunda?).

Ouvir histórias ou buscá-las a partir de um mote, de um dispositivo-tema, é uma das estratégias narrativas fecundas do documentário latino-americano contemporâneo. Trata-se de uma abordagem que reconhece a existência de frestas, de suspensões que ocorrem invisíveis ou submersas na vida cotidiana. Esta que, grosso modo, é descrita como superfície plana, pouco afeita a sobressaltos que gestam espaços de fecundas táticas de sobrevivência (CERTEAU,1994). No entanto, elas existem e revelam mais do que o inventar: explicitam-se em gestos, falas e ações que mostram a capacidade de refletir sobre a própria vida e, assim, modificá-la, constituindo pequenas realidades iluminadas, capazes de reverberar esperança, como fazem os diversos “personagens” de “Galáxias”, de Fabiano Maciel. No documentário, a paixão pelo livro e pelo ato de ler e escrever mobiliza personagens inesperados em jeitos inesperados. E ali, mais uma vez, o que vale é o “ouvir histórias”, apostar no feito extraordinário que rompe com a lógica do banal. “É o único açougue do mundo que vende carne inteligente”, brinca o pai de Sartre Alves (sim, é uma homenagem...), e de Cecília Clarice (precisa explicar?).

Assim, em ambos os filmes há uma “colheita de histórias” que configuram uma composição que se tensiona sob a Teoria da Identidade Mereológica, ou seja, sob a relação lógica existente entre as partes e o todo. Pois, o que se desdobra destes documentários “corais” – no sentido de não haver um personagem único – entre outras questões, é o propósito de um cinema que investe/crê na potência do narrador, como se buscassem rever o diagnóstico de Benjamin (1983). Porque ambos, por caminhos bastante distintos, desenham um cotidiano pautado pelo impacto do “extraordinário”, propósito que remete a Heller (2008) e sua defesa da arte como a que é capaz de elevar a vida acima da homogeneização da cotidianidade. Neste processo, potencializa a possibilidade da visão crítica que aciona os movimentos que se colocam como horizonte a transformação social. E, neste instante, de profundo desencanto em praticamente toda a América Latina em função das diversas derrotas sofridas pelos chamados governos progressistas da última década, revisitar estes filmes reverbera Benjamin para quem “Nada facilita mais a memorização das narrativas que aquela sóbria concisão que as salva da análise psicológica” (BENJAMIN, 1983, p. 204). Não será esta, portanto, a estratégia fundamental destes filmes tecidos por breves mas densas histórias, colhidas aos tufos, sob profunda crença no pacto entre o narrador e o ouvinte? E, mais: histórias amealhadas pela perspectiva das singulares fricções cotidianas em que se imprime a marca do narrador? Será este um viés fértil para nos localizarmos nesta América Latina que persiste, resiliente em sua tática de sobrevivência que, de certo modo, sabe-se localizada ao largo dos anéis circuncêntricos do poder político?
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. "O narrador". In Textos Escolhidos. São Paulo: Abril Cultura, 1983.

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano – 1. Artes de Fazer. 9ª Ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 1994.

GAUTHIER, Guy. O documentário. Um outro cinema. Campinas(SP): Papirus, 2011.

HELLER, Agnes. O Cotidiano e a História. 8ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

LEFEBVE, Maurice-Jean. Estrutura do discurso da poesia e da narrativa. Coimbra: Livraria Almedina, 1976.

RENOV, Michael (Org.) (1993). Theorizing Documentary. New York: Routledge, 1993.

REZENDE, Luiz Augusto. Microfísica do Documentário – Ensaio sobre Criação e Ontologia do Documentário. Rio de Janeiro: Faperj/Azougue, 2013.

STAROBINSKI, Jean. A Tinta da Melancolia – Uma História Cultural da Tristeza. São Paulo: Cia das Letras, 2016.