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  Título
Encenar deslocamentos, povoar imagens: o cinema de A. Sissako
Autor
Hannah Serrat de Souza Santos
Resumo Expandido
Este trabalho propõe-se a investigar os filmes “A vida sobre a terra” (1998) e “Heremakono” (2002), de Abderrahmane Sissako. Cineasta negro, Sissako nasceu na Mauritânia, mas viveu grande parte de sua vida no Mali, antes de emigrar para Rússia e, depois, para a França. Questões ligadas ao exílio vivenciado pelo cineasta e ao trânsito entre países e lugares, assim como suas relações familiares e afetivas estão presentes em todo seu cinema. No entanto, ao contrário de compor narrativas que se dirijam a aspectos individuais de sua própria experiência, Sissako trata de tensionar e avizinhar o cinema e o mundo, compondo cenas intensamente povoadas por homens, mulheres, crianças e animais que coabitam algumas regiões do oeste africano entre o Mali e a Mauritânia.



“A vida sobre a terra” e “Heremakono” são filmes que se interessam por deslocamentos e migrações no oeste africano, sob diferentes formas. O primeiro, a partir de um retorno do próprio Sissako, então radicado na França, à vila de Sokolo, no Mali, onde vivia seu pai, desencadeando encontros, escutas e partilhas de algo do cotidiano dos moradores locais e questionamentos da própria trajetória do realizador e da herança colonial na África, abordada a partir dos escritos de Aimé Césaire. O segundo nos apresenta, como protagonista, um jovem malinês que chega na cidade de Nouadhibou, no litoral mauritano, para se despedir de sua mãe antes de partir para a Europa. Paralelamente, o filme acompanha outros personagens em trânsito ou em movimento em Nouadhibou, segunda maior cidade da Mauritânia, no litoral do Atlântico e importante ponto de passagem e também de destino, na África subsaariana de imigrantes. Em ambos os filmes, é preciso acompanhar os deslocamentos dos personagens para que o cinema proceda à escuta e ao encontro dos sujeitos filmados. Trata-se de considerar a urgência, a força e a inevitabilidade dos movimentos migratórios e abordá-los, poética e politicamente, junto ao cinema. Nesse sentido, a partir da análise da composição das narrativas e das operações fílmicas de enquadramento e de montagem, interessa-nos investigar como os filmes são capazes de tecer e/ou retorcer os liames entre os povos e os territórios, tendo em vista os movimentos diaspóricos que se constituem no oeste africano, sem perder de vista, ainda, as espessas linhas de força que atravessam os corpos negros, mas também árabes, mouros e asiáticos que se colocam em circulação na África, cuja história, conforme sugere Achille Mbembe (2015, p. 69), não poderia ser compreendida “fora do paradigma da itinerância, da mobilidade e do deslocamento”.



A partir disso, interessa-nos pensar como o cinema de Sissako dá lugar a novos modos de aparição dos povos africanos, possibilitando, como reivindicam Frantz Fanon (2008) e Achille Mbembe (2001; 2011), a invenção de novas existências possíveis, recusando reificar formas identitárias unívocas ou uma relação autóctone com os territórios. Se, como nos diz Mbembe (2011), o mote principal do trabalho de Fanon nos dirige à possibilidade de “forjar um sujeito humano novo”, “capaz de habitar o mundo e de o partilhar de modo a que as possibilidades de comunicação e de reciprocidade sejam restauradas”, interessa-nos pensar como o cinema de Sissako engaja-se nesta tarefa, produzindo como gostaria Mbembe (2001, p. 199) “novas formas africanas de auto-inscrição”, que não sejam reduzidas “a uma ordem puramente biológica baseada no sangue, na raça ou na geografia”. Nessa esteira, gostaríamos de pensar, ainda, uma questão análoga a essa: afinal, como o cinema de Sissako seria capaz de proceder o “não fechamento em um território, a negação de uma consubstancialidade de um ‘sangue’ ou de uma ‘terra natal’” para dar lugar, ainda, a “novas modalidades do comum”, a partir de uma reunião de multiplicidades ou singularidades, como sugere César Guimarães (2016, p. 47), ali, onde é preciso, ainda hoje, fazer frente a uma constante investida dos imaginários racistas e colonialistas?
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