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  Título
Hito Steyerl e Virginie Despentes: cinema como estética de resistência
Autor
Gabriela Machado Ramos de Almeida
Resumo Expandido
Esse trabalho busca investigar as possibilidades de aproximação entre sensibilidades queer e feminismos dissidentes a partir da obra fílmica e teórica de duas mulheres: Hito Steyerl e Virginie Despentes. Realizadoras de filmes que transitam entre o documentário, a autoficção e a ficção e que costumam ser lidos na chave da pós-pornografia, essas artistas podem ser pensadas à luz também do que Beatriz Preciado chama de um feminismo lúdico que encontra no audiovisual, na literatura ou na performance seus espaços de ação (PRECIADO, 2007).

Ao mesmo tempo, sua produção teórica – ainda pouco lida no Brasil – investiga questões de gênero e sexualidade com uma forte inflexão queer e um intenso diálogo com a biopolítica, tecendo críticas ao modo como o capitalismo, com suas formas de exercício de disciplina e controle, domestica o desejo, o fetiche e o prazer, especialmente no caso de práticas sexuais tidas como dissidentes ou improdutivas – as práticas contrassexuais (PRECIADO, 2015).

À pornografia que se convencionou chamar de mainstream, que é heteronormativa e inviabiliza um lugar de sujeito político para a mulher, se contrapõe uma produção dotada de uma sensibilidade queer, em que as autoras mulheres (no caso do corpus escolhido aqui) exercem controle criativo sobre as suas obras e sobre o próprio repertório cultural que circunda as temáticas dos filmes, como nos casos de Steyerl em “Lovely Andrea”, documentário de teor autobiográfico sobre uma experiência da artista com bondage, ou de Despentes em “Baise-moi”, filme de autoficção em que encena o próprio estupro e que é uma adaptação do livro homônimo de sua autoria. Diante da ausência de um conceito bem delineado de sensibilidade queer, ela é pensada aqui enquanto estética e narrativa que se faz presente nesses filmes, produzindo fortes estranhamentos e se negando à conciliação com o “futurismo reprodutivo”.

Há também um processo de escrita que se coloca em forte diálogo com o trabalho artístico dessas mulheres, em textos como “Teoria King Kong”, de Despentes (2016), e na criação de conceitos como circulacionismo, imagem ruim e capitalismo audiovisual, por Steyerl (2014 e 2015, respectivamente). Para Steyerl (2010), a produção de subjetividades passa necessariamente pelos processos de produção e consumo de imagens. Considerando-se que esses processos obedecem a uma lógica capitalista, seria necessário questionar o que tem acontecido com a capacidade de imaginar, criar e inventar, e buscar formas possíveis de resistência que comporiam uma espécie de desobediência epistêmica.

A despeito da emergência de discursos feministas no presente que parecem remontar a um “feminismo estatal” (PRECIADO, 2008, p. 238), calcados quase que exclusivamente na retórica da violência de gênero, que acaba por reificar posições subalternizadas para as mulheres – inclusive ao colocar as representações visuais e audiovisuais do sexo novamente como tabu - talvez se possa pensar em uma pornografia que se transforma em ação política e em mecanismo estético não apenas de resistência às normatividades da própria pornografia, mas também de afirmação de práticas sexuais tidas como “monstruosas” (COELHO, 2009) que foram privatizadas/silenciadas em prol de uma normatividade heterossexual.

Se, para Preciado (2007), “o melhor antídoto contra a pornografia dominante não é a censura, mas a produção de representações alternativas da sexualidade, feitas a partir de olhares divergentes dos pontos de vista normativos”, é possível que se encontre essas representações na obra de Steyerl e Despentes. Esse trabalho se dispõe, então, a pensar a produção fílmica e teórica dessas artistas a partir de questões como: quais seriam os limites entre real e representação numa produção de acento pornográfico e de teor autobiográfico? É possível pensar em mecanismos estéticos de resistência às normatividades sexuais no capitalismo? O que seria exatamente uma sensibilidade queer nesse contexto?
Bibliografia

BERARDI, Franco. Generación post-alfa: patologías e imaginários en el semiocapitalismo. Buenos Aires: Tinta Limón, 2016.

COELHO, Salomé. Por um feminismo queer: Beatriz Preciado e a pornografia como pré-textos. Revista ex æquo, n. 20, 2009, pp. 29-40. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/pdf/aeq/n20/n20a04.pdf.

DESPENTES, Virginie. Teoria King Kong. São Paulo: n-1, 2016

PRECIADO, Beatriz. Mujeres en los márgenes. El País, 2007. Disponível em: https://elpais.com/diario/2007/01/13/babelia/1168648750_850215.html.

PRECIADO, Beatriz. Testo Yonqui. Madri: Editorial Espasa Calpe, 2008.

PRECIADO, Beatriz. Manifesto contrassexual. São Paulo: n-1 edições, 2015.

STEYERL, Hito. Los condenados de la pantalla. Buenos Aires: Caja Negra, 2014, pp. 11-14.

STEYERL, Hito. Circulacionismo. Cidade do México: Museu Universitario Arte Contemporáneo/Universidad Nacional Autónoma (UNAM), 2014.

STEYERL, Hito Em defesa da imagem ruim. Revista serrote. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2015, pp. 18