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  Título
eXistenZ, de Cronenberg: chamado pouco ouvido a repensar o sexo hetero
Autor
Fernando Mascarello
Resumo Expandido
O canadense David Cronenberg é sem dúvida um dos diretores mais instigantes da paisagem cinematográfica das últimas décadas. Face ao maquinário tecnocientífico e às corporações que o produzem e tecem as redes do poder transnacional na sociedade pós-industrial, os personagens incansavelmente marginais e desajustados dos seus filmes ora alucinam, ora sofrem mutações, psicotizam, caem em drogadição, ora relacionam-se com próteses, provam do abjeto, do paranormal, do grotesco, do visceral ou se entregam a múltiplas e por vezes inauditas formas de perversão.

Em cena ao longo de toda a obra de Cronenberg, como fio condutor quiçá maior dessa temática e iconografia a um só tempo variegada e reincidente, desponta o mal-estar da sexualidade contemporânea, em todo o seu leque de manifestações. De filme a filme, as subjetividades muito singulares dos personagens terminam por compor um rico panorama de gozos, sintomas, fantasias e encontros com o real, até porque remetem a identidades de gênero, identificações sexuais e escolhas de objeto as mais distintas.

Neste trabalho, proponho-me a uma análise mais detida sobre o olhar de Cronenberg com respeito ao que se tem denominado, nos estudos dos homens e das masculinidades – bem como nos campos vizinhos dos estudos de gênero e da teoria queer –, como heterossexualidades desviantes, alternativas ou subversivas (Connell, 1995). Mais especificamente, tomo como objeto o filme eXistenZ (1999), sua pequena obra-prima do cinema de arte de virada de milênio, entendido como compondo um díptico em torno ao tema com o seu clássico do cinema de horror dos anos 1980, Videodrome: A Síndrome do Vídeo (1983).

Como ponto de partida, elejo o surpreendente silêncio, na fortuna crítica do filme, com respeito à sua evidente alegorização das potencialidades antinormativas do sexo hetero. Um filme tão polissêmico como eXistenZ naturalmente se presta a chaves de leitura as mais distintas, mas esta chave alegórica foi negligenciada em favor de outros recortes temáticos, como o referente à sua reflexão em torno ao estatuto da realidade na era digital, o tema cronenberguiano recorrente da relação corpo-tecnologia e a vinculação de ambos com o capitalismo e as corporações pós-industriais.

eXistenZ narra a fuga conjunta da autora de jogos digitais Allegra Geller e seu funcionário Ted Pikul, através de planos distintos de realidade, depois que rivais tentam assassiná-la em uma demonstração do revolucionário jogo que acabou de criar. Ela tem que salvar seu jogo, que restou armazenado somente no pod orgânico mutante a que os jogadores se acoplam por meio de bioportas em forma de ânus instaladas em suas vértebras lombares. No filme, o que vemos é um homem heterossexual subordinado hierarquicamente a uma mulher que a ela obedece e, primeiro, permite que outro homem instale uma bioporta em suas costas e, logo, que a mulher introduza nesta o fio/tentáculo do pod a fim de jogar eXistenZ. Isso vem compor uma alegoria, que segue ao longo do filme inteiro, de uma relação sexual em que ambos os parceiros são passivos.

Muito sinteticamente, creio que o filme assinala a necessidade de uma experimentação mais audaciosa – e sua discussão na esfera pública, e não apenas esporadicamente na esfera privada ou dentro do casal, especialmente no terreno da sexualidade, sobre comportamentos masculinos heterossexuais alternativos ou desviados ainda considerados tabus, que apontem para a possibilidade de reconfigurações mediante a incorporação de elementos historicamente típicos da feminilidade (Schneider, 2000) – promovendo, assim, um rearranjo mais radical da política dos prazeres do sexo hetero (Segal, 1994). Em outras palavras, para além do genital e da ejaculação (Bruckner e Finkielkraut, 1979), incluindo, por exemplo, a passividade (e sem que essa passe necessariamente pela submissão e o masoquismo) (Bleichmar, 2006), os prazeres da pele, a entrega, a interioridade etc.
Bibliografia

BLEICHMAR, Silvia. Paradojas de la sexualidad masculina. Buenos Aires: Paidós, 2006.

BRUCKNER, Pascal; FINKIELKRAUT, Alain. El nuevo desorden amoroso. Barcelona: Editorial Anagrama, 1979.

COHAN, Steven; HARK, Ina Rae (orgs.). Screening the male: Exploring masculinities in Hollywood cinema. Nova Iorque: Routledge, 1993.

CONNELL, Raewin. Masculinities. Cambridge: Berkeley: University of California Press, 1995.

JIMÉNEZ, Juan Carlos Pérez. De lo trans: Identidades de género y psicoanálisis. Buenos Aires: Grama, 2013.

REIS, Bruce; GROSSMARK, Robert. Heterosexual masculinities: Contemporary perspectives from psychoanalytic gender theory. Nova Iorque: Routledge, 2009.

REESER, Todd. Masculinities in theory: An introduction. Malden: Blackwell, 2010.

SCHNEIDER, Monique. Généalogie du masculin. Paris: Flammarion, 2000.

SEGAL, Lynne. Straight sex: Rethinking the politics of pleasure. Berkeley: University of California Press, 1994.

WILLIAMS, Linda. Screening sex. Durham: Duke University Press, 2008