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  Título
O cinema antropomórfico de Visconti: ambiguidades e possibilidades
Autor
Luis Fernando Severo
Resumo Expandido
Ao contrário de seus conterrâneos e contemporâneos Rossellini e Pasolini, Luchino Visconti não elaborou escritos teóricos que permitam cotejar a obra que nos legou com uma visão analítica do processo criativo de seu cinema. Por isso reveste-se de especial importância a existência de um artigo de apenas três páginas, Cinema Antropomórfico, que Visconti publicou em outubro de 1943 na revista italiana Cinema, poucos meses depois do lançamento de seu primeiro longa-metragem, Obssessão (Ossessione, 1943).



Além de escassos, uma parte dos escritos viscontianos sobre a criação artística referem-se exclusivamente ao seu profícuo trabalho como encenador de teatro e de ópera. Publicado no período que precede a eclosão e consolidação do neorrealismo, esse texto se notabilizou como uma das raras fontes diretas que podemos consultar a respeito da visão de Visconti sobre seu trabalho como diretor. Devido à sua brevidade não chega a se constituir numa teoria completa, mas é uma valiosa teorização escrita num momento em que Visconti é diretor estreante.



Uma exegese contemporânea do artigo, à luz de uma obra fílmica consolidada e estudada academicamente há décadas, revela intrigantes ambiguidades e possibilidades interpretativas, que tanto podem ser fruto da publicação de um texto ainda não suficientemente amadurecido como representar o desejo deliberado de instigar o leitor, deixando-o em estado de suspensão sobre o tema central abordado.



O antropomorfismo é um conceito filosófico que atribui características físicas, sentimentos, emoções, pensamentos, ações ou comportamentos humanos aos objetos inanimados ou aos seres irracionais. Em sua origem etimológica, vinda do grego, o termo “antropomorfismo” é a junção dos termos anthropo (homem) e morfhe (forma). Penetra na cultura ocidental através de um espectro fabular e mitológico que remonta aos primórdios da civilização, passa pela edênica serpente bíblica e encontra terreno fértil no cinema de fantasia e de animação. Curiosamente esse conceito original de antropomorfismo não transparece de forma direta na obra viscontiana, nem o diretor faz afirmações concretas no artigo enfocado sobre como o associa conceitualmente à sua obra. No texto publicado, afora o título, o termo em questão aparece unicamente numa frase isolada entre parágrafos: “O cinema que me interessa é um cinema antropomórfico". Contrariando a expectativa criada, inexiste na sequência qualquer desenvolvimento do termo em direção ao cinema já realizado ou a ser feito pelo diretor. Ao invés disso ele mergulha em diversas considerações sobre seu trabalho com os atores, incluindo os chamados não-atores, concluindo com uma profissão de fé numa visão humanística da arte, onde a ausência do ser humano da tela apagaria qualquer outro valor restante no fotograma. “A experiência me ensinou sobretudo que o peso do ser humano, a sua presença, é a única coisa que verdadeiramente preenche o fotograma. (...) Ao passo que a sua ausência momentânea do retângulo luminoso vai reconduzir cada coisa a um aspecto de natureza imóvel.”



O propósito maior deste trabalho é investigar e estabelecer uma reflexão sobre esse texto a partir da análise de certos elementos não humanos que se relacionam com personagens viscontianos em determinados filmes, tomando como corpus as obras que compõem a Trilogia Alemã, Os Deuses Malditos, Morte em Veneza e Ludwig. Entre as linhas de estudo possíveis de serem trilhadas estão a preocupação com o risco do diretor ser “corrompido por uma visão decadentista do mundo” e sua capacidade de “fazer um filme diante de um muro, se eu souber encontrar os dados da verdadeira humanidade dos homens ali colocados diante do elemento cenográfico nu”. São afirmativas desafiadoras para quem pretenda analisar uma obra que se notabiliza pela presença ostensiva da direção de arte em todas as suas nuances e por narrativas intimamente impregnadas pelos conceitos de esplendor e decadência.
Bibliografia

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