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  Título
Quase memória - representações da memória na adaptação
Autor
Marcela Dutra de Oliveira Soalheiro Cruz
Resumo Expandido
O recebimento misterioso de um pacote, à primeira vista, simples: assim começa o romance de Carlos Heitor Cony, Quase Memória (1995). A partir do encontro inesperado com esse“ (...) embrulho, que parecia um envelope médio, gordo, amarrado por barbante ordinário”, se desenrola uma narrativa cravejada de reminiscências, texturas e afeto atravessada pela subjetividade de Carlos, o personagem narrador.

Absorto nas lembranças evocadas pelo envelope, Carlos nos leva em uma jornada por suas memórias, alicerçado na profunda certeza de que o remetente é seu pai, morto décadas antes.

Em 2018, Quase Memória se torna filme, dirigido e roteirizado por Ruy Guerra. Esta adaptação encontra alguns desafios pela escolha do objeto literário fonte: narrador em fluxo de consciência, poucas inserções descritivas espaciais, poucas interações do personagem com o mundo externo e uma relação intensa com a presentificação da memória. (MCNEILL, 2013)

O artigo aqui proposto se debruça, então, exatamente sobre o universo diegético criado por Ruy Guerra para dar conta da jornada imersiva e subjetiva do romance pelas memórias do personagem. A escolha deste objeto se dá por entendermos que esta adaptação propõe questões interessantes para o campo da adaptação literária em três instâncias: 1) a transposição e construção do narrador e personagem principal, 2) a elaboração da narrativa a partir da narração e do fluxo psicológico do personagem literário e 3) as escolhas quanto à concretude imagética representacional da memória no cinema.

Nossa hipótese é que o filme tensiona questões próprias à temporalidade e à sua construção diegética ao gerar o encontro do personagem consigo mesmo. A partir da presença de dois Carlos, um de 1968 e outro de 1994, ficamos presos em um “não tempo”. Em um tempo não especificado, que se move apenas através desta troca - entre passado e presente - mas que também se interrompe por esta dupla presença, teoricamente impossível.

Para dar conta dessas questões, o filme se utiliza da presença dos dois personagens, além de inserções do que Munsterberg chamou de “cut-backs”. Tais recursos seriam as reminiscências de um passado que, para o espectador, são catalisadores de narrativa, e do que o autor chama de “caprichos da sua imaginação”, momentos em que passado possível e imaginação fantástica se misturam. É justamente essa mistura que gera um universo único, tão próprio e característico da memória.

O diálogo improvável entre os personagens evoca o passado, e com ele, as lembranças do pai. Como enxurrada, as memórias inundam os personagens e a tela, feito água de temporal. As lembranças se tornam imagem, uma projeção na parede de vidro do apartamento de Carlos, e nós as acompanhamos através dos olhos dos dois homens. A metáfora é sensível: cinema e projeção de memória, ao mesmo tempo narrativa construída e contada. Imagens lembradas, pelos sujeitos que as detém, e compartilhadas para que se tornem objetos de espectatorialidade para os sujeitos que assistem. Assim, tornam-se imagens de troca, memórias que, agora, compartilham todos que assistem de forma conjunta àquela performance. Personagens e espectadores
Bibliografia

CONY, Carlos Heitor. Quase memória. Editora Objetiva, 2014.

HUYSSEN, Andreas, and Vera Ribeiro. Culturas do passado-presente: modernismos, artes visuais, práticas da memória. Contraponto, 2014.

MCNEILL, Isabelle. Memory and the moving image: French film in the digital era. Edinburgh University Press, 2010.

MÜNSTERBERG, Hugo. "A atenção; a memória e a imaginação e as emoções." A experiência do Cinema. Rio de Janeiro, Edições Graal: Embrafilme (2008).

RANCIÈRE, Jacques. "As distâncias do cinema." Rio de Janeiro: Contraponto (2012).

SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Companhia das letras, 2007.

STAM, Robert, and Marie-Anne Kremer e Silva. A literatura através do cinema: realismo magia e a arte da adaptação. Ed. UFMG, 2008.