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  Título
A busca por Stimmung no roteiro de Chicanery, de Better Call Saul.
Autor
RODRIGO ARAGAO QUIRINO
Resumo Expandido
Better Call Saul é um série estadunidense que estreou em 08 de fevereiro de 2015 na AMC, canal estadunidense. Atualmente está em sua terceira temporada. A série que conta como James McGill se transformou em Sall Goodman é um grande sucesso de público e crítica, com uma média de 4,4 milhões de espectadores por episódio e uma vasta indicações em premiações. A série é derivada de outra que fora também um enorme sucesso de público e crítica, Breaking Bad. Better Call Saul herdou da série irmã mais do que bons personagens. Herdou um estilo narrativo minimalista que constrói conflitos dramáticos de maneira poderosa, baseado em uma estrutura narrativa que privilegia situações corriqueiras do dia-dia. A forma narrativa da série pode ser já percebida como diferente na maneira como é escrito o roteiro. Ao contrário do que estamos acostumados nos estilos de formatação padrão, Better Call Saul opta por um estilo de formatação que busca construir um atmosfera a respeito da cena criada.

Esse trabalho busca analisar a forma narrativa da série Better Call Saul, tendo como base a análise do roteiro do episódio Chicanery, o quinto episódio da terceira temporada. O episódio foi indicado na categoria de melhor roteiro de série dramática no Emmy 2017 , sendo um dos episódios mais acalmados da terceira temporada. Por ser uma série em que o arco da temporada é mais forte do que o episódico, faz com que o arco dos personagens seguiam um fluxo, episódio a episódio. O episódio Chicanery é um ponto crucial do desenvolvimento da terceira temporada da série. Marcando o enfrentamento entre dois personagens que já vinha se antagonizando pelas duas primeiras temporadas.

Vince Gilligan e Peter Gould são os autores da série. Gilligan fora também o criador de Breaking Bad e Gould um dos roteiristas. Na produção seriada televisiva a figura central é o Showrunner. Figura responsável pelo sentido de autoria da série, sendo o criador e roteirista chefe da série. Desenvolvendo a estrutura narrativa da série e de suas respectivas temporadas. Fica a cargo do diretor levar a visão estabelecida nos roteiros e pensada previamente para manter um estilo narrativo para as telas.

Desde os primórdios do cinema o roteiro vem assumindo lugar e estrutura diferenciada. Em cada época podemos observar um modelo que se enquadra a estrutura produtiva presente. O padrão atual de formatação para roteiros utilizado na indústria cinematográfica é conhecido como master-scene. É um modelo que privilegia a construção da cena. Nesse tipo de modelo a estrutura da escrita busca construir elementos filmáveis da narrativa. Tudo que está no roteiro precisa ser transformado em imagens ou sons. Ele funciona como base de informações para o que irá ser construído.

Apesar de ser um modelo padrão, para Steven Price (2013) esse é um modelo modular que se adapta a novas formas produtivas e formatos. A partir desse ponto, do roteiro como um texto modular, Price passa a rever os aspectos dos estudos de cinema e adaptação. Observando o roteiro como uma peça que deva ser analisada de forma autônoma, anterior a análise feita em sua adaptação fílmica. Ou seja, analise do roteiro explícito em detrimento de um roteiro implícito.

O roteiro analisado propõe elementos que são avessos ao modelo master-scene. Pois utiliza-se de elementos que não serão de maneira alguma filmados, ou mesmo fílmicos. Bem como onomatopeias, perguntas e pensamentos internos. Sentenças postas para dialogar com um leitor e não um expectador. Uma vez que essas sentenças não estarão na adaptação fílmica e nem serão perceptíveis no roteiro implícito. Essas construções tem por finalidade a busca de um Stimmung (GUMBRECHT, 2014) para quem irá construir a adaptação fílmica. Seja o diretor, o diretor de fotografia, produção ou a montagem. Evoluindo assim o modelo master-scene focado apenas na construção fílmica da cena, para uma construção atmosférica da cena.
Bibliografia

BUTLER, Jeremy. Television Style. New York: Routledge, 2010.

SILVA, Marcel Vieira Barreto. Cultura das séries: forma, contexto e consumo de ficção seriada na contemporaneidade. Galáxia, São Paulo , v. 14, n. 27, p. 241-252, jun. 2014. Disponível em: . Acessos em 29 jul. 2017.

______ - Dramaturgia seriada contemporânea. Lumina. Vol.8 • nº1 • junho 2014, ISSN 1981- 4070 Disponível em . Acesso em 30 de julho de 2017.

MARTINS, Pablo. O cinema como refúgio da escrita: ekphrasis e roteiro, Peter Handke e Wim Wenders, arquivos e paisagens. Rio de Janeiro: [s.n], 2015, 379 p. Disponível em: Acesso em: 20 abr. 2018.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Atmosfera, ambiência, Stimmung. Sobre um potencial oculto da literatura. Rio de Janeiro: Contraponto: Editora PUC-Rio, 2014.