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  Título
Insurreições: estética e política em "Feminino Plural" (1976)
Autor
Alcilene Cavalcante
Resumo Expandido
O retorno a 1968 é, hoje, relevante, não apenas pelos acontecimentos inquietantes daquela data, mas pelo que os eventos do período ensejavam. Trata-se de um ano que simboliza uma época cujos marcos cronológicos não são exatos. No Brasil, de acordo com Ridenti (2009, 81), ela vai do final dos anos 1950, atravessados pelas implicações da rápida modernização, a meados dos anos 1970, com os desdobramentos, no país, do fim da guerrilha do Araguaia, da eleição de uma bancada oposicionista no Congresso Nacional e dos acenos militares de abertura política.

O filme de Vera de Figueiredo é realizado, pois, em uma época marcada por “visões de mundo rebeldes e revolucionárias”, baseadas no “sentimento” de “que transformações profundas estavam ao alcance das mãos e de que o mundo caminhava para elas” (idem, 82). Tratava-se de um tempo, em que intelectuais e artistas eram considerados agentes transformadores, que “politizavam a estética e estetizavam a política” (idem).

No cinema, o modelo clássico hollywoodiano, com suas narrativas lineares, protagonizadas por personagens masculinas, brancas e voltadas para o prazer do espectador masculino, passa a ser questionado. Diferentes projetos experimentais foram realizados, configurando um certo boom de produções alternativas à indústria, em diferentes cinematografias nacionais, denominado por Nicole Brenez (2016, 10) como um verdadeiro vulcão estético.

Naquele contexto, as teóricas feministas do cinema não falavam de guetos: antes, dialogavam com as principais correntes da sociologia, da psicanálise, da semiótica; acompanhavam os incipientes Festival de cinema de mulheres de New York e a sessão de filmes de mulheres do Festival de cinema de Edimburgo. Integravam, segundo Bordwell (2005, 23), o campo recém-constituído dos “estudos de cinema”, que, desde meados dos anos de 1960, fundamentavam os primeiros cursos acadêmicos estadunidenses.

Claire Johnston (1973) e Laura Mulvey (1975), para citar apenas duas teóricas desses estudos, debruçaram-se sobre o cinema clássico hollywoodiano e sobre os filmes realizados às margens da indústria, analisando a representação de mulheres no cinema e também o denominado “cinema de mulheres”. Se Mulvey desmontou o dispositivo do prazer visual que subjugava o feminino, Johnston chamou logo à atenção para os desafios da inovação da linguagem e para o contra-cinema de mulheres.

Feminino Plural, lançado em 1976, insere-se nessa perspectiva. O filme irrompe a narrativa clássica, apresentando elementos modernistas: cenas documentais; incluindo personagens não-atores; não narrativo; não linear; delirante; onírico; com aparência de improviso e enquadramentos não convencionais. Utiliza recursos da performance e da dança para desenvolver diferentes histórias paralelas e sem conexões aparentes, mas com a predominância de temas relacionados ao feminino e à política do período.

O protagonismo feminino é ressaltado nas sequências em que sete mulheres de diferentes etnias, classes e gerações chegam de motocicletas a uma cidade interiorana do Rio de Janeiro, e interagem com a população local e com a natureza; e, em outras, que mostram o processo de subordinação feminina da personagem Vitória, desde a infância até a vida adulta.

Feminino Plural dialoga ainda com a historiografia brasileira que procurava explicar o golpe de 1964 e o regime de ditadura em curso, lançando na tela um ponto de vista sobre as relações entre os militares e os agentes do capital internacional, o que acarretou cortes pela censura.

O filme de Vera de Figueiredo, resultante daquela época efervescente, ficou invisibilizado na historiografia do cinema brasileiro, a despeito de inovar em termos de linguagem e de conteúdo. No presente trabalho abordaremos o silenciamento sobre o filme, considerando sua inserção no “cinema de mulheres”, seus aspectos experimentais, bem como sua insurgência no contexto político e moral da época.
Bibliografia

BORDWELL, David. Estudos de cinema hoje e as vicissitudes da grande teoria. In: RAMOS, Fernão (org.). Teoria Conemporânea do cinema, v. 1, São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2005, pp 25-70.

BRENEZ, Nicole. Por uma história do cinema insubordinada ou rebelde. Revista Eco Pós, Cinema Experimental, v. 19, nº2, 2016, dossiê, pp. 9-13.

CAVALCANTE, Alcilene; HOLANDA, K. “Feminino Plural: história, gênero e cinema no Brasil dos anos 1970”. In: Bragança, Maurício; TEDESCO. Marina. (Org.). Corpos em projeção: gênero e sexualidade no cinema latino-americano. 1ed. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013, v. 01, p. 134-152.

JOHNSTON. Claire. Women’s Cinema as Counter-Cinema. In KAPLAN, Ann. Feminism and Film. New York: Oxford University Press, 2000, pp. 22-33.

MULVEY, Laura. Visual Pleasure and Narrative Cinema. In: KAPLAN, Ann. Feminism and Film. New York: Oxford University Press, 2000, pp. 34-48.

RIDENTI, Marcelo. A época de 1968: cultura e política. In: FICO, Carlos; ARAUJO, Maria Paula (orgs). 1968: 4