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  Título
Collage: voz, found-footage e filme-ensaio
Autor
Rafael de Almeida
Resumo Expandido
Segundo Adorno, “o ensaio pensa em fragmentos, uma vez que a própria realidade é fragmentada; ele encontra sua unidade ao buscá-la através dessas fraturas, e não ao aplainar a realidade fraturada” (ADORNO, 2003, p. 35). A forma ensaística se revelará, portanto, também no cinema, a partir de uma estrutura rizomática, que mescla materiais de origens diversas que se interconectam de forma não-linear, descontinuada e intermitente, assim como o próprio pensamento. Nesse movimento, perceberemos que a noção de fragmento, mais que buscar um nivelamento e homogeneização das formas no filme-ensaio, estará interessada em evidenciar a textura e as arestas presentes em cada migalha de imagem.



Por essa perspectiva, o princípio de montagem será o que mais se dá a ver no resultado final, por efetivamente propor uma costura com essas imagens e sons. Dizemos isso pois o ensaísta audiovisual muitas vezes irá se valer de imagens deslocadas de seu âmbito original – produzidas por ele mesmo ou reapropriadas – com a intenção de alcançar outros sentidos, ao justapor esses trechos de proveniências diversas, no novo contexto. Dessa forma, as imagens revelam-se matérias em que se é possível modelar a forma e os contornos, matérias a serem recicladas pelo gesto da montagem.



Weinrichter (2007) irá pontuar que essa maleabilidade gera uma distância reflexiva entre o realizador e os materiais que maneja a partir de duas técnicas principalmente: o comentário verbal e a montagem. Ambas as técnicas são capazes de alterar o valor e a potência desses fragmentos, ao permitir que lidemos com as imagens como representação, ao invés de simplesmente codificar o que representam.



Se por um lado a mediação da voz de um sujeito enunciador é capaz de trazer à tona estratos de leitura da imagem, que não seriam percebidos facilmente; por outro, lidar com esses fragmentos na montagem como imagens literalmente, e não como as próprias coisas do mundo que representam, permitiria abrir espaços interpretativos entre um plano e outro, entre uma banda e outra, que não estão dados nelas de antemão.



Found footage é o nome da técnica cinematográfica que se vale da apropriação de materiais alheios. Ao reservar certa autonomia, as imagens do filme-ensaio realizado com found footage atuam também como testemunhas, ou evidências, de que não foram produzidas para aquele fim. Mas se permitem empenhar o papel almejado pelo cineasta, que as desloca de seu lugar original para alcançar um sentido que não está dado nelas à primeira vista. Sendo assim, o exercício de montagem aliado à voz over do narrador revela o quanto a construção dessa trama audiovisual reflexiva junto a esses extratos imagético-sonoros está fortemente relacionado à noção de fragmento. Logo, é o transitar entre essas imagens fragmentadas, e a tentativa de traçar um plano de composição a partir delas, por meio dos mecanismos retóricos, que dá forma ao pensamento do ensaísta.



Por essa perspectiva, o problema de pesquisa a que nos dedicamos questiona: como a voz-over, o found footage e o filme-ensaio comportam-se enquanto práticas criativas autônomas, bem como relacionam-se entre si, pensando em obras que reutilizem imagens e sons de arquivos? Partimos da hipótese inicial de que a aproximação entre a voz-over, o found footage e o filme-ensaio se dá sobretudo por meio do procedimento de montagem, encontrando-se frequentemente conectado com a noção de collage, “uma técnica criativa que é também um método crítico” (WEES, 1993, p. 52).



Por ser “regido pelos princípios de descentralização e dispersão, o collage ‘está dominado por múltiplas posições de observação: cada fragmento é móvel e aberto à interação com uma multidão de contextos semânticos, simbólicos, estéticos, etc’.”. (ELENA, 2009, p. 217). Nesse sentido, por meio das práticas da voz-over, do found footage e do filme-ensaio, as imagens e sons de arquivo assumem um caráter de fragmento que parece permitir sua articulação por meio da montagem compreendida como collage.
Bibliografia

ADORNO, Theodor W. O ensaio como forma. In: Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.



CATALÀ, Josep. Film-ensayo y vanguardia. In: TORREIRO, Casimiro; CERDÁN, Josetxo (orgs.). Documental y vanguardia. Madrid: Cátedra, 2005.



ELENA, Alberto. Una estética del collage: documental, ensayo y vanguardia en la obra de Sergei Paradjanov. In: VAQUERO, LAURA GÓMES; LÓPEZ, SONIA GARCÍA (Org.) Piedra, papel y tijera. Madri: Ocho y médio, libros de cine, 2009.



WEINRICHTER, Antonio (Org.). La forma que piensa: tentativas en torno al cine-ensayo. Pamplona: Governo de Navarra, 2007.



WEES, William C. Recycled Images. The Art and Politics of Found Footage Film. Anthology Film Archives, Nueva York, 1993.