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  Título
O ator como forma na mocap e na performance capture
Autor
CASSIO HENRIQUE STARLING CARLOS
Resumo Expandido
A mutação tecnológica na qual o suporte da criação cinematográfica passou do suporte analógico para o digital implicou modificações, já plenamente avançadas, nos âmbitos econômico e estético. No que diz respeito à história e à teoria, o digital vem solicitando frequentes reavaliações e reformulações, considerando-se que parte relevante do arsenal conceitual foi formulado com base na natureza fotográfica da película e seus processos físico-químicos de captação, manipulação e preservação.

Aquele paradigma oferecia a partir de elementos pro-fílmicos, por exemplo, um parâmetro para distinguir, por contraposição, a abrangência de noções tão problemáticas como “realismo” e “ilusionismo”. Mas o digital alargou de tal forma as possibilidades de alteração e de composição das imagens, tanto as fotográficas quanto as sintetizadas por meio de CGI (sigla para computer-generated imagery), que hoje não é mais prudente delimitar o que é ou não efeito.

O apagamento de fronteiras afeta, do mesmo modo, distinções entre material e virtual, imagens obtidas por meio de recursos fotográficos ou produzidas por meio de animação, sejam corpos e figuras considerados fantásticos, sejam elementos “realistas”, como lugares, criaturas naturais e faces humanas.

O primeiro estágio do processo de autonomia em relação ao pro-fílmico teria se iniciado, de acordo com John Belton, a partir da digitalização dos efeitos especiais, quando a “tecnologia digital transformou a imagem fotográfica em um objeto realmente ‘plástico’, que pode ser moldado e remodelado na forma que se queira”. (Belton, 2002, p. 100). A plasticidade da imagem digital e a possibilidade de gerar todo tipo de imagens por meio da computação gráfica estão na base da argumentação de teóricos proeminentes que definem o digital como superação da “identidade indexical do cinema” (Manovich, 1996, p. 295) ou como “desontologização da imagem baziniana” (Stam, 2003, p, 350).

Ora, dentre os novos recursos de CGI que amplificaram a gama de possibilidades de representação por meio de efeitos visuais, duas técnicas parecem conter princípios que relativizam tais conclusões.

A primeira, chamada motion capture (ou mocap), consiste no registro, por meio de um dispositivo combinado de câmeras e sensores, dos movimentos corporais dos atores tanto em estúdio como em locações. A segunda, denominada performance capture, deriva de aperfeiçoamentos daquela e permite registrar as expressões dos rostos dos atores também por meio de sensores que transmitem dados da movimentação muscular facial para uma pequena câmera acoplada à cabeça. A combinação das linhas, traços e esquemas assim obtidos é que serve de base à criação de personagens virtuais cujos movimentos e expressão serão percebidos como “realistas”, mesmo quando se trata de personagens fantásticos, como os interpretados pelo ator britânico Andy Serkis nas trilogias O Senhor dos anéis (Peter Jackson, 2001-2003), O Hobbitt (Peter Jackson, 2012-2014) e Planeta dos macacos (Rupert Wyatt, 2011, e Matt Reeves, 2014-2017).

O objetivo do nosso trabalho é identificar os indícios da atuação corporal e da interpretação vocal de Serkis na trilogia Planeta dos macacos, e buscar traços evidentes e subterrâneos de sua performance na construção de Caesar. Este personagem híbrido entre fera e humano, entre virtual e real, entre animação e live-action é também paradigma de uma nova estética que absorve o passado sem, de fato, ultrapassá-lo.
Bibliografia

Belton, John. “Digital Cinema: A False Revolution”. October, vol. 100, Obsolescence. (Spring, 2002).



Bode, Lisa. Making believe: screen performance and special effects in popular cinema. New Brunswick: Rutgers University Press, 2017.



Brenez, N. De la figure en général et du corps en particulier: l’invention figurative au cinema. Bruxelas: De Boeck, 1998.



Grosoli, M.; Massuet, J.-B. (orgs.) La Capture de movement ou le modelage de l’invisible. Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2014.



Gunning, Tom. "Moving away from index: cinema and the impression on reality". Differences, vol. 18 (1), 2007.



Manovich, Lev. The Language of new media. Cambridge: MIT Press, 2001.



North, Dan. Performing illusions: cinema, special effects and virtual actor. New York: Wallflower Press, 2008.



Purse, Lisa. Digital imaging in popular cinema. Edimburgh: Edimburgh University Press, 2013.



Stam, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas: Papirus, 2003