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  Título
O SEGREDO DO FILME: a construção da voz do filme através da montagem.
Autor
Laís Lima Pinho
Resumo Expandido
O presente artigo se dedica a analisar dois filmes-documentários brasileiros contemporâneos: Santiago (2007), de João Moreira Salles e Pacific (2009), de Marcelo Pedroso: a partir dos modos de realizar a montagem das obras e dos procedimentos que são usualmente empregados no processo de edição dos filmes. Os dois filmes são produções realizadas, especialmente, a partir e dentro da sala de montagem, tendo o processo criativo de edição como veiculo propulsor para realização dos filmes. É pelo processo de montagem que buscaremos entender como se constrói da voz do filme nas obras em Santiago e Pacific. A análise aqui proposta segue em direção à diferença das duas produções, combinando os filmes de maneira que eles se diferenciem enquanto o posicionamento dos cineastas, como em um movimento circular ou uma montagem do que tem em um filme e do que falta em outro.

Santiago foi lançado em 2007 e com uma hora e dezenove minutos de duração. No mesmo ano, Santiago foi vencedor do Grande Prêmio do Festival Cinéma du Reel de Paris, ficou em primeiro lugar no Festival de Cinema Latino-americano de Lima. No ano seguinte venceu os prêmios de melhor filme e melhor edição no Grande Prêmio Cinema Brasil.

Pacific foi lançado em 2009 e foi exibidos em vários festivais Brasil a fora, foi premiado como melhor filme no 9º Festival do Filme Livre, no 4º Panorama Coisa de Cinema e no Primeiro CachoeiraDoc – Festiva de Documentários de Cachoeira e também levou o premio de melhor longa no CineEsquemaNovo.

É interessante também notar, a questão da autoria no documentário: quem constrói a voz: o montador ou o diretor? Partindo do princípio de que esses filmes têm um forte embate entre os cineastas e as imagens de que eles dispõem, além do fato deles só se tornarem possíveis durante o processo de montagem, far-se-á uma análise comparativa que se propõe à refletir sobre o processo de construção da voz do filme documentário.

A relação da montagem e do montador de filmes de ficção e documentário é também de esferas distintas. Todo o planejamento do filme de ficção vai refletir no processo de montagem do mesmo, no qual cabe ao montador dar ritmo e acentuar o teor dramático da narrativa, baseado no planejamento feito anteriormente pelo diretor.

Defendemos que o gesto de montagem que perpassa esses filmes se revela como uma estratégia crítica, ao permitir (a) uma abertura para novas possibilidades de leitura cinematográfica, (b) demandar um olhar e um posicionamento critico frente à produção do documentário e (c) por elaborar questões sobre alteridade e ética no cinema a partir de uma perspectiva relacional.

Conforme indica Bill Nichols, essa relação entre “modos técnicos” e “modos estilísticos” tem papel atuante na construção da voz do documentário. Eis o cerne deste trabalho. Por exemplo, se em Santiago a estética é um quesito importante para o diretor João Moreira Salles, em Pacific, a estética e a plasticidade da imagem não é algo que preocupe o diretor Marcelo Pedroso, uma vez que as imagens do filme são oriundas de câmeras digitais portáteis.

Outro ponto importante refere-se à relação dos diretores com as personagens do filme: Santiago se desenvolve a partir de um tom pessoal e relacional; Pacific por sua vez, sequer notamos a presença do diretor no filme. A exemplo de como conseguimos notar a presença efetiva de João Moreira Salles em Santiago e como essa percepção se torna mais difícil em Pacific, parecendo até que não há ali interferências de Marcelo Pedroso.

Como os dois filmes são produções feitas especialmente dentro da sala de montagem, é através deste processo que buscaremos entender como se dá a construção da voz do filme em Santiago e Pacific, desmontando os filmes na ilha de edição. A análise aqui proposta segue em direção a diferença das duas produções, combinando os filmes de maneira que eles se diferenciem enquanto o posicionamento dos cineastas. Como em um movimento circular ou uma montagem do que tem em um e o que falta em outro.
Bibliografia

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COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: o inocência perdida : cinema, televisão, ficção,

documentário / Jean-Louis Comolli ; seleção e organização, César Guimarães, Rubens Caixeta ; tradução, Augustin de Tugny, Oswaldo Teixeira , Ruben Caixeta ; revisão técnica, Irene Ernest Dias. – Belo Horizonte : Editora UFMG, 2008.

DANCYNGER, Ken. Técnicas de edição para cinema e vídeo: história, teoria e prática / Ken Dancynger; Tradução de Maria Angelica Marques Coutinho - Rio de Janeiro; Elsevier, 2003.

DIDI-HUBERMAN, G. Imagens apesar de tudo. Portugal: KKYM, 2012.

NICHOLS, Bill. La representación de la realidad. Barcelona: Paidós, 1997.

_________. A voz do documentário. In: RAMOS, Fernão (org.).Teoria Contemporânea do cinema, v. 2. São Paulo: Editora SENAC, 2005.

_________. Introdução ao documentário/ Bill Nichols; Tradução Mônica Saddy Martins - Campinas, SP; Papirus.