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  Título
O Ensaio fílmico segundo René Descartes: uma sugestão filosófica
Autor
Mateus Araujo Silva
Resumo Expandido
Muito discutido de uns anos para cá, o ensaio fílmico costuma ser pensado à luz do célebre "O ensaio como forma", de Theodor Adorno (invocado no mais das vezes de forma superficial), e remetido por seus historiadores ao modelo dos Essais (1580) de Michel de Montaigne. Apostando no diálogo entre a teoria do cinema e a tradição da filosofia, e exercitando nesta fronteira a sua vocação comparatista, a comunicação procura testar porém um outro modelo filosófico para o ensaio fílmico. Depois de assinalar de passagem a surpreendente desatenção ao ensaio fílmico nos textos tardios de Adorno, e também nos de Gilles Deleuze, sobre o cinema, ela revisita brevemente a teoria das nossas funções mentais elaborada por René Descartes (1596-1650) e, mais especificamente, sua tese do entrosamento entre as operações do entendimento e as representações da imaginação. Segundo Descartes, nosso entendimento é capaz de exercer suas tarefas e suas operações, sem prejuízo da sua soberania cognitiva inconteste, no seio mesmo da atividade ou das representações imaginativas. Ao longo de sua obra, desde os seus primeiros escritos até os últimos, nos deparamos com inúmeras situações e inúmeros textos em que tal capacidade aparece, revelando assim a fidelidade de Descartes a uma intuição profunda de sua filosofia. Assim, o entendimento pode pôr em dúvida, julgar e interpretar em pleno sonho nossas representações oníricas (cf. Olympica, AT X), ou desencadear e governar no cérebro o fluxo de imagens em que consistiria uma verdadeira arte da memória (cf. Cogitationes privatae e Cartesius, AT X e XI), ou intuir, deduzir e julgar no seio das representações imaginativas de figuras ou grandezas matemáticas (cf. Regras para a direção do espírito, AT X), ou afirmar a indubitabilidade de certas operações matemáticas mesmo que elas estejam sendo sonhadas (cf. Discurso do Método, Meditações metafísicas, Princípios da Filosofia, AT VI-XIX). Em suma, pode exercer suas operações de conhecimento em meio ao fluxo imaginativo. Ora, guardadas as devidas proporções, é exatamente este entrosamento entre atividade imaginativa e produção de conhecimento (em sentido estrito) que define o ensaísmo fílmico. Neste, as operações argumentativas se exercem em meio ao (e por meio do) fluxo de imagens e de sons, que não são obstáculo ao conhecimento, mas constituem o solo mesmo de onde ele pode surgir. Formulada de modo conciso a homologia entre o modelo do funcionamento da mente segundo Descartes e o modelo da construção das imagens e dos sons no ensaio fílmico mais corrente (amparado na mediação de uma subjetividade, de um eu ou de uma voz que conduz o fluxo audiovisual e leva a argumentação do filme para esta ou aquela direção), a comunicação recorre por fim a alguns brevíssimos exemplos extraídos de alguns ensaios fílmicos canônicos, de Jean-Luc Godard, Chris Marker, Alexander Kluge e Harun Farocki.
Bibliografia

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