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  Título
Sentir com: o espectador empático das instalações em realidade virtual
Autor
Cristiane Moreira Ventura
Resumo Expandido
O desejo de imersão em outra “realidade”, seja por meio de ficção assumida ou de narrativas em torno de experiências pessoais, é uma constante na humanidade. Há enriquecimento e transformação a partir das histórias escutadas. As diversas formas para construção realidades - oralidade, visualidade, escrita, música, permitem o acionamento de um jogo de ilusão, em que ocorre a suspensão do entorno objetivo, empiricamente compartilhado. Na contemporaneidade, a hiperconectividade e o excesso de informações parecem condicionar o padrão de percepções, pois é constante a demanda por aprimoramento das técnicas e tecnologias capazes de afetar e ampliar os sentidos, modulando um novo comportamento perceptivo e uma nova forma de compreender as múltiplas realidades.



O cinema em Realidade Virtual (VR) tem se tornado foco de investimentos, algumas produções já começam a reverberar em importantes festivais de cinema e arte. Em 2016, em Amsterdam, foi aberta a primeira sala de cinema VR do mundo. No VR o público é com que “tragado” para dentro imagem, imerso naquele ambiente, anulando-se quase que completamente seu contato com a realidade factual. . Conforme Oliver Grau, quando o observador está imerso em um espaço de alta resolução, de ilusão de 360 graus, é quase impossível manter alguma distância da obra ou objetivá-la (GRAU, 2007, p. 231)





Para além de um fetichismo tecnológico e saciedade de um prazer estético, alguns artistas tem se valido do VR para promover reflexões importantes em torno de questões sociais, políticas, afetivas, físicas e emocionais das minorias. As obras em VR analisadas, vão além de comunicar, representar a condição humana de outrem, sentido o que é do outro como se fosse seu, como poeta fingidor de Pessoa. Elas permitem ao visitante transitar nesse espaço narrativo dos imigrantes ilegais, sentir na pele o que é passar pela situação perigosa, humilhante ao atravessarem as fronteiras em México e Estados Unidos guiados por “coites”, sofrendo também as violentas abordagens militares, que é o caso de Carne y Arena (virtualmente presente, físicamente invisible) do diretor Alejandro G. Iñárritu, exibida durante o Festival de Cannes, em maio de 2017. Posteriormente a instalação foi montada na Ciudad de México.



Já em Notes on blindness: into darkness, de Peter Middleton e James Spinney, lançado no festival de Sundance de 2016, o público pode vivenciar a experiência psicológica e sensorial de cegueira do teólogo John M. Hull (1935-2015). A obra foi concebida a partir dos diários gravados em áudios por John, que narra suas dificuldades, medos, sonhos angústias e transformações sofridas pela perda da visão, assim como a aceitação desta condição. Além da instalação em VR, os diretores realizaram um documentário híbrido que se envereda nos campos da memória, da ficção, da poesia e do ensaio, onde John (em seus áudios) reflete sobre o processo de amadurecimento acerca de sua condição de cego, largado da nostalgia das imagens.



Ambas obras artísticas analisadas na comunicação possuem um caráter humanístico e partem de registros do real, utilizando experiência vividas. Em Carne y Arena, Iñárritu, se vale das entrevistas realizadas com imigrantes e posteriormente realizou um convívio com essas pessoas, resultando num trabalho de doc-ficcional. Da mesma forma ocorre em Notes on blindness, em que os diretores utilizaram a própria voz de John para criar a instalação e o documentário.



Tendo em vista o percurso da espectatorialidade, dentro do contexto da arte contemporânea, das instalações audiovisuais, verificamos como o espectador anteriormente passivo torna-se interativo, performático, caminhante, torna-se empático, podendo aproximar-se mais das subjetividades alheia, torna-se empático ao experimentar no próprio corpo, aspectos da realidade do outro, estando assim em devir.
Bibliografia

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