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  Título
Corporeidades e espacialidades nos filmes históricos de Nagisa Oshima
Autor
Pedro de Araujo Nogueira Tinen
Resumo Expandido
Tabu é a obra que encerra, não apenas a carreira de Oshima, mas um período da filmografia do diretor que o especialista em cinema japonês Scott Nygren chamou de o “vasto projeto histórico de Oshima”, um período que inclui o conjunto de filmes iniciados após O Império dos Sentidos e abordaram a história do Japão como uma “complexa intersecção entre sexualidades conflitantes e instituições e discursos políticos” (NYGREN, 2004, pg. 540). Esse agrupamento de quatro filmes (O Império dos Sentidos, O Império da Paixão, Furyo: Em Nome da Honra e Tabu) compartilha um pensamento sobre a história de um país e sua cultura sexual que, por sua vez, informa o próprio modo de representação fílmica.

Igualmente, a reconstituição do passado nesses filmes é intimamente ligada ao regime espacial da clausura, elabora-se uma narrativa huis-clos, na qual a História é conjugada pelo espaço da cena onde o tempo se torna uma ameaça especializada pela sua condição de externalidade e, justamente na dialética fabricada entre o interno e o externo que o privado coincide com o público, que o erótico confunde-se com o nacional. Assim, constrói-se uma rede que costura nesses filmes as relações entre corporeidade, espacialidade, sexualidade e política, pois, embora esses filmes estejam ambientados em momentos marcantes e significativos da História japonesa (a tentativa de golpe militar de 1936, a Guerra Sino-Japonesa, a Segunda Guerra Mundial e a Restauração Meiji, respectivamente), opta-se pela não representação desses eventos em uma dimensão monumental. As narrativas concentram-se em sujeitos que vivem à margem da História, enclausurados pelas suas próprias obsessões e por suas pulsões eróticas. O que não significa que sejam filmes investidos exclusivamente no hedonismo erótico-sexual de personagens que estão absolutamente isoladas de seu contexto político-social, muito pelo contrário, o que se articula nesse conjunto de filmes é precisamente a complexa intersecção entre política e sexualidade descrita por Nygren.

O que é composto é uma reconstituição histórica em que a História se transforma em uma sombra, uma penumbra opaca que se sobrepõem às investidas internas das subjetividades das personagens. Sendo assim, não há possibilidade de indagar sobre os comportamentos dos sujeitos sem os relacionarmos com o ambiente político diegético. O erotismo pulsante elaborado pelo texto fílmico remete imediatamente ao conceito de erotismo formulado por Georges Bataille (1962) como uma pulsão, uma obsessão fundamental que almeja um sentido de continuidade em um mundo descontínuo e fragmentado, e como essa conceptualização pode orientar o entendimento das relações estabelecidas entre o erótico e o político nos filmes de Oshima.

Em Império dos Sentidos, o avanço do fascismo atravessa todo o romance entre Sada e Kichizo, o isolamento e a progressão do comportamento obsessivo de ambos são emoldurados pela arruinação da democracia japonesa e pelo levante nacionalista. Juntos, o casal cria seu próprio oásis sexual, um espaço do hedonismo puro, protegido do caos externo, mas igualmente destrutivo. Em Furyo, é a própria dinâmica do campo de concentração que afasta a História para às margens daquela prisão, o tempo ali está suspenso enquanto o espaço se torna um lugar onde violência e morte se fundem com erotismo e desejo sexual. Já Tabu repete, ao menos tematicamente, a formulação espacial do confinamento homossocial pela ordem e hierarquia militar desdramatizando a fábula da Shinsengumi na iminência da Restauração Meiji e do advento da modernidade japonesa.

Esta comunicação tem o objetivo de analisar como Oshima radicalizou a condição háptica das imagens cinematográficas, tanto por suas produções de espacialidades (BRUNO, 2002), quanto por suas produções de corporeidades, na medida em que os corpos e espaços, as paisagens e peles se confundem nesses filmes.
Bibliografia

BATAILLE, Georges. Death and Sensuality: a study of eroticism and the taboo. Nova Iorque, Walker and Company: 1962.

BRUNO, Giuliana. Atlas of emotion: Journeys in art, architecture, and film. Nova Iorque, Verso: 2002.

NAGIB, Lúcia. World Cinema and the Ethics of Realism. Nova Iorque: Continuum, 2011.

NYGREN, Scott. Time Frames : Japanese Cinema and the Unfolding of History. Minneapolis, Londres: Univesity of Minnesota Press: 2007.

SEDGWICK, Eve Kosofsky. Between Men: English Literature and Male Homosocial Desire. Nova Iorque: Columbia University Press, 1985.

TURIM, Maureen. The Films of Nagisa Oshima: images of a Japanese iconoclast. Berkeley, Los Angeles, Londres: University of California Press, 1998.