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  Título
Ruído como representação: do grão ao código
Autor
Patricia Moran Fernandes
Resumo Expandido
Analisar e entender a produção audiovisual a partir da materialidade do meio, especialmente sua utilização recorrente em movimentos artísticos ou contextos culturais, evidencia escolhas estéticas e eventualmente projetos políticos e poéticos face a escolhas técnicas. Este amplo conjunto de caminhos e de campos do conhecimento povoa o repertório das vanguardas cinematográficas dos anos 60, pródigas na mostração de texturas do mundo imbricadas à química e material da película cinematográfica. Em Nova Iorque Stan Brakhage, Jonas Mekas a Larry Gotheim em seus projetos poéticos e postura política fizeram da materialidade condição para o retorno do cinema como cinema, um dos pontos para estruturar seu debate com universos existenciais distantes da produção corrente no mercado. Na arte do vídeo Nam June Paik e os músicos Steina e Woody Vasulka fizeram dos primeiros sintetizadores de imagem matéria do visível. Paik e o casal Vasulka integram o mesmo grupo do cinema estrutural, apesar de trabalharem com vídeo e sintetizadores viviam na mesma cidade, frequentavam os mesmos lugares e desenvolviam trabalhos experimentais. Segundo Juan Suárez tanto os músicos, quanto os cineastas situavam-se à margem da produção musical e cinematográfica oficial, também tinham em comum a música serial e as artes visuais como ponto de partida artístico. A imagem em movimento, seja o vídeo ou a película eram fonte de invenção expressiva, oportunidade de questionamento das formas dadas.

No Brasil José Roberto Aguilar e Éder Santos, artistas multimídia de gerações subsequentes e pioneiros na experimentação do vídeo, fizeram da materialidade imagem. Rastro da luz dos tubos da câmera, da abertura câmera e a imagem eletrônica como pixels exibidos como recursos poéticos superando a precariedade técnica. A baixa resolução e limitações técnicas como operações poéticas. Nossa apresentação partirá da problematização deste contexto para pensar performances audiovisuais de Caio Fazolin, Fernando Velásquez e VJ Vigas. Estes trabalhos fazem da tela um espaço do testemunho da passagem, do processo de formação da imagem. A imagens estruturas, ou seja o processo de sua constituição tornado visível. A materialidade, a qualidade e abstração técnica como quase-imagem passível de se projetar.

VJ Vigas exibe como matéria visível recursos expressivos que emulam a matéria constitutiva da matrix formadora da imagem, nestes casos há uma articulação discursiva, a materialidade é representada e não apresentada. Fernando Velásquez faz da materialidade recurso visual, mescla naturezas de imagens no trabalho Reinos de modo a explicitar o dado cultural da matéria digital. Já Caio Fazolin, como outros artistas contemporâneos tem desenvolvido seu trabalho a partir de dados, de paisagens informacionais inacessíveis sem o conhecimento do seu contexto. Cada um destes usos da matéria coloca uma gama de alternativas em termos de representação, em alguns trabalhos até contraditórios entre si. Este é um lugar do grão e do pixel como visualidade, objeto de experimentação para a constituição da imagem como performance da matéria. Este grupo de realizadores brasileiros, tanto os contemporâneos como os tradicionais, nos oferece um ponto de partida para uma análise em via de mão dupla dos cruzamentos técnicos e políticos na experimentação com a materialidade da imagem. Em termos visíveis o ruído indício de incompletude, de visualidade pouco codificada e de uma estética da sugestão, como colocou Jean-Epstein, é uma das faces constante do constante cruzamento entre a superfície e a matrix geradora da imagem, seja ela digital ou analógica.
Bibliografia

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