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  Título
Apropriações da cultura pop em Batman Pobre e Hitler III Mundo
Autor
Anderson Luis Ribeiro Moreira
Resumo Expandido
Nosso objetivo é observar gestos políticos realizados a partir da apropriação de elementos da cultura pop global pelo audiovisual brasileiro contemporâneo. Para isso, partiremos do vídeo Batman Pobre (2013, Carlos Medeiros), que explora a figura do herói em um contexto periférico e de lutas. A operação apropriadora realizada por esse vídeo, que tensiona a relação entre os conteúdos locais e globais, é cara ao cinema brasileiro, existindo e resistindo ao longo de sua história. Com isso em mente, também analisaremos Hitler III Mundo (1968, José Agrippino de Paula), filme que utiliza personagens da cultura pop para falar do contexto político violento que caracterizou a ditadura militar. Buscaremos, assim, explorar as linhas que conectam e afastam essas obras, pensando nas potencialidades políticas da apropriação da cultura pop pelo audiovisual brasileiro.

Em Batman Pobre, acompanhamos uma figura franzina, vestida com uma roupa de Batman composta de sunga e sacos de lixo, no meio de uma manifestação contra o despejo da Aldeia Maracanã em 2013. Interessa-nos aqui, nas imagens tremidas da câmera-manifestante que segue Medeiros enquanto ele se imiscuí na multidão, o que pode essa estratégia política de se apropriar de um personagem ubíquo do universo pop global e o usar como catalizador de um vídeo manifestante. Por meio desse dispositivo, o vídeo capta a vibração das ruas em luta e o duro poder repressivo estatal, ao mesmo tempo em que evidencia de forma irônica, através da imagem do herói aqui precarizado e que é originalmente propriedade de uma grande corporação midiática, as complexas relações entre o Brasil e o capitalismo global, que naquela época investia pesadamente nos megaeventos que o Rio de Janeiro sediaria.

Hitler III Mundo faz operações semelhantes, ainda que num contexto de produção completamente distinto. Em uma estrutura fragmentada, Agrippino faz uma colagem de personagens pop colocados no contexto brasileiro, sempre remetendo ao regime ditatorial em curso na época. Assim, vemos O Coisa dos quadrinhos sendo perseguido e preso pela polícia militar. E, ainda mais contundentemente, uma cena de tortura, como as que aconteciam nos porões da ditadura, que faz uma paródia da famosa cena de criação do monstro em Frankenstein (1931, James Whale). Dessa forma, o filme usa figuras do pop estadunidense para denunciar um regime que tinha ampla influência daquele país.

Ambas as obras, assim, reciclam o lixo, o resto imagético do conteúdo produzido pelos grandes conglomerados de mídia, travando batalhas internas com as imagens que roubam, jogando os conteúdos de que se apropriam em contextos precários, de tortura, luta e repressão – um procedimento eminentemente antropofágico. Trata-se do que Benedito Nunes (1979) chama de função terapêutica da antropofagia, ou seja, de um ataque crítico e satírico contra os mecanismos repressores que ainda agem na sociedade brasileira, utilizando-se, para isso, das ferramentas da própria cultura repressora. Diferentemente de uma citação esvaziada, aqui, como diz Viveiros de Castro (2015), através da seleção de certos elementos da cultura antropofagizada, procura-se transformar a própria obra e, nesse processo, fazer o contrário, o inimigo, transformar-se também. O que, acreditamos, os filmes que analisaremos procuram fazer.

Dessa forma, partiremos da comparação entre as duas obras específicas, das ressonâncias e dissonâncias entre elas, para pensar como o cinema brasileiro se apropria desse conteúdo pop global como forma de resistência política. Buscaremos analisar as maneiras como esses conteúdos apropriados são trabalhados estética e politicamente nas imagens dessas obras e como isso se relaciona com o contexto em que elas foram produzidas. Procuraremos também entender se a estratégia antropofágica é neutralizada no âmbito contemporâneo de cooptação capitalista da intertextualidade ou se ainda carrega potência quando atualizada no contexto da produção de vídeos manifestantes dos anos 2010.
Bibliografia

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NUNES, Benedito. Oswald Canibal. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1979.



RAMOS, Guiomar. Um cinema brasileiro antropofágico? (1970-1974). São Paulo: Annablume; Fapesp, 2008.



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STAM, Robert. The Transmogrification of the Negative. In: Keynotes in Subversive Films/Media Aesthetics. West Sussex: John Wiley & Sons, 2015



VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Que temos nós com isso? In: AZEVEDO, B. Antropofagia Palimpsesto Selvagem. São Paulo. Cosac Naif, 2016.