Voltar para a lista
 
  Título
Afogando em Números: Digitalização e a Força de Trabalho da Montagem
Autor
Silvia Okumura Hayashi
Resumo Expandido
O ato da montagem não se limita ao audiovisual. A montagem é uma ação de construção que pode ser aplicada a práticas tão variadas quanto a produção de um objeto ou a construção de um espaço virtual. A experiência de tom anedótico narrada por Lev Manovich e que descreve a viagem de Potemkin e Catarina, a Grande pela área rural da Rússia, uma jornada no qual Catarina jamais deixa a carruagem e vê pela janela uma sucessão de vilarejos bucólicos cenografados de antemão por Potemkin e conclui sobre a prosperidade da vida camponesa russa é um exemplo de montagem não muito distante daquele realizado no audiovisual (MANOVICH, 2001).

Com o estabelecimento do audiovisual digital, as operações de montagem anteriormente feitas através do corte de celulóide e fita magnética foram repostas pela manipulação de imagens e sons através de instruções operadas através de softwares (MANOVICH, 2013). O trabalho manual da montagem foi em parte substituído por instruções a serem executadas por um aparato digital.

Numa investigação etimológica do termo digital, é imediata a associação entre o próprio termo e a palavra dedo, digit na língua inglesa (GUNNING, 2014). Se o trabalho da montagem não passa mais pelas mãos que cortam imagens impressas em suporte físico, ao mesmo tempo o ato de tocar e trabalhar imagens em telas digitais sensíveis ao toque é um ato cuja prática se insere na vida diária do tempo presente.

A montagem de digital de imagens e a sua conversão em instruções operadas por um software modificou de maneira definitiva o ato de se cortar e se montar. Ao contrário do que ocorria com o celuloide, o corte não mais modifica fisicamente uma matéria palpável. Pode-se cortar e se modificar numerosas vezes uma imagem digital sem danificá-la como se fazia com um pedaço de filme. A montagem audiovisual tornou-se assim um ato menos decisivo? A montagem como um ato de criação se desvanece entre as infinitas possibilidades de combinação que podem ser testadas em um software de edição (AUMONT, 2014)? Uma análise daquilo que compreendemos como montagem parece balizar um exame dessa questão. Se considerarmos a montagem como a ação que gera o produto audiovisual, a montagem é agora ainda mais central e decisiva. Os produtos audiovisuais que hoje assistimos em diferentes telas são composições de fragmentos de imagens que se agregam para se exibirem à nossa visão. Um ser fantástico em pleno vôo pode ser a fusão de um ator içado por cabos apagados digitalmente, aplicado sobre uma paisagem que une componentes criados por computação gráfica. As ações de montagem numa imagem como esta são tão numerosas quanto os elementos que compõem essa imagem.

A imaterialidade da mídia digital permite a sua livre circulação e também a livre circulação do trabalho montagem. As implicações dessa livre circulação de mídias e serviços cria um cenário no qual o ofício da montagem tem sido colocado em cheque. Montadores de imagens e sons, em suas diversas especialidades (montadores, editores de som, animadores, criadores de efeitos visuais, etc) se deparam com um contexto de precarização (LARSEN, 2011) no qual o trabalho da montagem tem se transformado numa commodity sujeita às regras globais de circulação de mercadorias e serviços. Outsorcing, ou terceirização de serviços são práticas corriqueiras no mercado audiovisual digital (ZIMMERMANN, 2015). Trabalhos laboriosamente intensivos como os necessários para a produção de filmes de animação são frequentemente terceirizados e a China e a Índia são hoje polos de produção de serviços para filmes de animação. A precarização dos contratos de trabalho não é o único ou maior desafio com o qual o trabalho da montagem digital, ou montador, se depara. “Software Takes Command”, título do livro de Lev Manovich, parece enunciar um futuro não muito distante para a montagem audiovisual onde a figura do montador parece ter um papel incerto e no qual a sua sobrevivência numa enxurrada de dígitos binários permanece uma incógnita.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. Montage. Montreal. Kino-Agora, 2014

CUBITT, Sean. Finite Media: Environmental Implications of Digital Technologies.Durham and London. Duke University Press, 2017

ELSAESSER, Thomas. Film History as Media Archeology: Tracking Digital Cinema Amsterdam. Amsterdam University Press, 2018

FORD, Henry My Life and Work. New York, Doubleday, 1922

GUNNING, Tom. Cinema of Digits: The Elusive Touch, The Evasive Grasp, The Open Gesture. Lecture. Cinema and Media Studies, University of Chicago, 2014

HUDSON, Dale and ZIMMERMAN, Patricia. Thinking Through Digital Media: Transnational Environments and Locative Places. New York, Palgrave MacMillan, 2015

LARSEN, Lars Bang. Zombies of Immaterial Labor: The Modern Monster and the Death of Death in Are You Working Too Much? Post-Fordism, Precarity and the Labor of Art. Berlin, Sternberg Press, 2011

MANOVICH, Lev Software Takes Command. London, Bloomsbury, 2013

STEYERL, Hito. The Wretched of the Screen. Berlin, Sternberg Press, 2012