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  Título
À Procura de Um Lugar Silencioso Nas Salas de Cinema
Autor
Mauricio Gomes da Silva Fonteles
Resumo Expandido
É usual ouvir dos profissionais que trabalham com som na pós-produção cinematográfica o termo "ruidagem" advindo da palavra ruído. Nessa aplicação não há um sentido pejorativo na palavra, utilizada para elencar os efeitos de som que compõem a trilha sonora de um filme e que não se referem diretamente às vozes nem às músicas. São ruídos criados ou captados durante a filmagem e que, de alguma maneira, contribuem para a construção da narrativa proposta pelos realizadores.



Do outro lado da tela, os espectadores/ouvintes, são colocados como receptores das narrativas construídas pela associação de imagens e sons que muitas vezes não possuem um referencial real, atuando ativamente no imaginário individual e coletivo. A recepção nesse caso não deve ser considerada em sua vertente passiva, uma vez que a audiência exerce um complexo trabalho de associações e interpretações de sons e imagens, mesmo que isso não seja percebido diretamente. Ao associar a imagem de um monstro grotesco, uma figura construída no imaginário, a um som cujo referencial é abstrato, o espectador interpreta a conjunção de ambas as mídias criando uma terceira que parte do seu próprio referencial e que muitas vezes baseia-se no próprio cinema enquanto referente.



O ato de ir ao cinema é um ato de interpretação sonora, uma ato de se colocar para ouvir um filme, além das imagens. Concordamos com o autor Gianluca Sergi, ao acreditarmos que os espectadores levam consigo muito mais do que um balde de pipoca ou seus casacos para a sala de cinema. Levam suas referências pessoais, sua cultura. E quando tratamos de som de cinema, não é incomum ouvirmos que os filmes estão ficando cada vez mais "altos" ou ruidosos, talvez seja uma maneira que os editores, mixadores ou sound designers, principalmente de filmes blockbusters americanos, encontraram para chamar a atenção para o universo fílmico, ou mesmo para se equiparar com a referência cada vez mais ruidosa que os espectadores carregam consigo para as salas de cinema. As próprias salas de cinema estão em processo de transição para sistemas mais complexos em suas possibilidades de reprodução e criação de universos imersivos.

Em paralelo a todo o desenvolvimento tecnológico, o ruído cresce e as pessoas tentam suprimi-lo com mais ruído, muitas vezes trocando o ambiente à sua volta por uma música, um podcast ou mesmo um filme que toca em seus auriculares. Quanto mais intenso o som externo, mais intenso o som interno, e um ciclo vicioso se constrói. Diante dessa percepção, dois filmes nos chamaram atenção pelo fato de tratarem dessa temática: Um Lugar Silencioso (2018) e "In Persuit of Silence" (2015).



O filme Um Lugar Silencioso (2018), do diretor John Krasinski, aparece como um grito silencioso para que os espectadores prestem atenção aos sons e, principalmente ao silêncio. Passado em um cenário rural pós-apocalíptico, o filme é um chamado para a escuta e uma construção hyper realista que prende a atenção de quem escuta aos detalhes construídos. Nos tornamos como os monstros (ou alienígenas) da história, guiados pelo som e envolvidos pelo silêncio, quase ausente nos filmes hollywoodianos.



O filme "In Persuit of Silence" (2015), do diretor Patrick Shen, é um documentário que também leva consigo a atenção ao som. Nesse caso porém, o documentário é uma crítica ao ambiente e contexto sonoro em que vivemos, no qual o silêncio parece se tornar um ruído, um corpo estranho com o qual as pessoas não estão mais acostumadas.



No artigo construiremos uma relação entre os dois filmes, por mais diferentes os gêneros, para tentarmos compreender o lugar das construções e representações sonoras cinematográficas enquanto um meio de discussão das paisagens sonoras contemporâneas.
Bibliografia

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