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  Título
Arquivo e roteiro: a precariedade a partir de Glauber Rocha
Autor
Nayla Mendes Ramalho
Resumo Expandido
Este trabalho tem a intenção ramificar as possibilidades de abordagem teórica e reflexiva a partir de roteiros e tudo que os envolve, como movimento do pensamento. Aqui se coloca o problema do roteiro como etapa e documento precário e, a partir dos roteiros de Glauber Rocha para Terra em Transe, como escrita que transparece precariedade, que abre o pensamento a encontros com acontecimentos históricos, reflexões teóricas e outras potências. Este foi o resultado de uma pesquisa de mestrado, que foi finalizada no último ano.

Roteiro de cinema é uma etapa que pode existir ou não no início da feitura de uma obra audiovisual. Pode ser básico para que se busque recursos financeiros para a produção. Ou então pode ser considerado como uma etapa fundamental da criação fílmica, principalmente ficcional. Mas há um dado curioso no roteiro. Sua existência é precária: 1) porque é um texto que tende a desaparecer quando o filme é finalizado; 2) apesar de atualmente se requisitar um roteiro bem estruturado, para que se consiga financiamento público ou privado para sua produção, não é uma etapa essencial ao cinema, tanto que há autores que não se utilizam do roteiro ou que formulam um método individual de escrita e planejamento que não se parece com um roteiro, como Eisenstein e Bergman e 3) precário porque há um espaço teórico que não define com precisão a importância dos roteiros na formulação das histórias e teorias do cinema.

Os roteiros, quando não desaparecem em sua precariedade material e virtual, podem fazer parte de arquivos físicos, já que quando em papel, por serem sensíveis à ação do tempo, necessitam de cuidados especiais. Este é o caso dos roteiros de Glauber Rocha, que a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, acolheu, provenientes do Tempo Glauber, que hoje, infelizmente, não existe mais. Foi em decorrência do processo de arquivação na Cinemateca que obtivemos acesso aos documentos aqui estudados. Apesar do cuidado com estes documentos, há uma violência arquival ocorrendo. Para Derrida (2001, p. 17), em Mal de Arquivo, o arquivo institui de maneira não natural relações entre documentos. Os arquivos são lugares que permitem a construção de uma ordem, não são “depósitos” de documentos. Não são escolhidos e organizados com imparcialidade: há uma relação entre o poder e o arquivo, o poder que organiza a história de acordo com seus interesses, que ocasiona decisivas consequências políticas. Aqui vemos a necessidade de desarquivar estes roteiros.

Em relação aos roteiros de autores brasileiros não tão famosos quanto Glauber, há uma radicalização da precariedade, em seu próprio desaparecimento. Esse desaparecimento ocorre tanto em decorrência da existência apenas pontual de arquivos documentais dedicados a eles, quanto por uma ideia transcendente do que é o roteiro. Tal ideia é também arquivo que não faz parte de um acervo físico, mas que, como consequência do desaparecimento dos documentos, se insere no espaço como uma perigosa representação do que é o roteiro e que, como em Derrida, é institução violenta.

Neste trabalho intentamos iniciar um pensamento através de roteiros não são tão invisíveis, mas que podem problematizar tal representação, tal arquivo transcendente de roteiros, ou seja, a idéia, quase ontológica, do que é um roteiro de cinema.

Abordaremos os roteiros de Glauber Rocha e as ideias que atravessam o processo de feitura de Terra em Transe, buscando contribuir com a construção de nuances singulares à história do roteiro, que está em construção. Os próprios roteiros e ideias de Glauber Rocha serão as indicações para desenharmos a precariedade do roteiro, do cinema e do arquivo. A precariedade em Glauber não é uma representação, mas imagem em si mesma, que vai se delineando como junção, montagem de diversos elementos: o choque, o transe, os silêncios, os delírios, o ritmo.
Bibliografia

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