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  Título
A fotografia e a narrativa fantástica em O Fantasma da Sicília
Autor
LAIZ MARIA DOS SANTOS DE MESQUITA SOUZA
Resumo Expandido
O Fantasma da Sicília, dirigido por Fabio Grassadonia e Antonio Piazza é baseado em caso real de Giuseppe Di Matteo, ocorrido na década de 90. Filho de ex mafioso que se tornou informante da polícia, o garoto, com apenas 12 anos, foi sequestrado e morto pela máfia italiana. Inspirados nesta tragédia, a dupla compõe um filme que mescla a realidade com a fantasia, o belo com o grotesco, o humano com a selvageria, a loucura com a sanidade, através de uma narrativa fantástica, guiada por Luna, namorada ficcional de Giuseppe. A fotografia é elemento importante na construção desta atmosfera fantasiosa. “Este mundo visual é uma parte importante sobre como a audiência vai perceber a história: como eles vão entender o personagem e suas motivações” (Brown, 2016, p. 02). A proposta deste trabalho é analisar O Fantasma da Sicília, observando as escolhas do diretor de fotografia, Luca Bigazzi, nesta construção de uma visualidade poética e fantasiosa para retratar uma história de amor juvenil entrelaçada por uma fatalidade.

A direção de fotografia trata-se de atividade criadora de expressividade, de uma “atmosfera” adequada para a cena do filme e para o seu contexto, como um todo (Céspedes, 2004). A escolha dos planos, enquadramentos, texturas, iluminação e pontos de vistas transformam a visualidade fílmica permitindo guiar o olhar do espectador. No filme em questão, a câmera acompanha, na maioria das vezes, o ponto de vista de um dos dois jovens enamorados, retratando a perspectiva juvenil, suas fantasias, sonhos e desafios. Portanto o diretor de fotografia faz parte do processo criativo da produção fílmica, sendo capaz de modificar, através do seu exercício, a obra.

Nestor Almendros (2012, p.54-55) defende que a composição de um enquadramento acontece imbuída da intenção de organizar os elementos visuais, tornando-os inteligíveis, úteis à narração e agradáveis à vista. Sobre esta organização, Wilson Gomes (2004) firma que o artista deve ser um programador da destinação de sua arte, capaz de antecipar a cooperação do consumidor, de prever os efeitos da sua obra sobre este. É através da escolha dos elementos presentes no seu enquadramento e da maneira como eles serão apresentados que um diretor de fotografia tenta manipular as sensações que sua obra provoca sobre o espectador.

Almendros (2012, p.17) acredita que mesmo que o diretor de fotografia tenha um estilo próprio de trabalho, ele deve conhecer e dialogar com o do diretor. Aronovich (2004, p.89) acrescenta sua visão sobre o poder de influência deste profissional sobre o diretor, podendo este sugerir mudanças na cena, quando acreditar que isto ocasionará um efeito de luz interessante. “Saber como uma cor se conecta com outra cor e que tipo de reações emotivas você pode ter dessas relações. Entender o modo psicológico que você pode separar ou unir luz e escuridão. Este tipo de conhecimento vai nos dar força para apresentar uma imagem ao diretor.” (STORARO, 2016a, p.11)

Diversas funções são da responsabilidade do diretor de fotografia. Entre elas estão as definições de enquadramento, movimento de câmera, composição das cores e a manipulação de seu elemento fundamental, a luz. Todos estes elementos somados permitem que o diretor de fotografia se expresse através da sua composição imagética. Isto é o que Gomes (2004, p.54) chama de ativação à solicitação sensorial do receptor. Estes aspectos são definidos pelo profissional, a partir das intenções que este tem para o filme. “É terrível quando alguém é forçado a filmar num quadro aberto, e depois alguma outra pessoa determina a composição final da imagem do filme. (...) Na modificação da composição da imagem, nós modificamos o próprio filme” (Storaro, 2016b, p.10).

Diante destas reflexões, este trabalho tem por objetivo investigar como a direção de fotografia contribui para a construção da fantasia e do belo no filme O Fantasma da Sicília.
Bibliografia

ALTON, John. Painting with light. University of California Press: California: 1997

ARONOVICH, Ricardo. Expor uma história: a fotografia do cinema. Rio de Janeiro: Gryphus; São Paulo: ABC, 2004.

BROWN, Blain. Cinematography: Theory and Practice: Image Making for Cinematographers and Directors. Routledge: 2016.

CÉSPEDES, Camenrosa Vargas. A linguagem da luz. Rio de Janeiro, RJ: Universidade Federal de Rio de Janeiro, 2004.

GOMES, Wilson. Estratégias de produção do encanto: o alcance contemporâneo da Poética de Aristóteles. Texto de cultura e comunicação, Salvador, v.35, p.99-125, 1996.

STORARO, Vittorio; FISHER, Bob; CODELLI, Lorenzo. L`Arte dela Cinematografia. Skira: Berenice: 2014.

STORARO, Vittorio. Scrivere con la Luce, i Colori, gli Elementi. Mondadori Electa: 2011

______. Passage from film to digital: Vittorio Storaro, ASC, AIC, 2016a. Film and Digital Times.

______. Digital Cinematography on “Café Society”, by Vittorio Storaro, ASC, AIS, 2016b. Film and Digital Times.