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  Título
O imaginário do indigesto no cinema brasileiro
Autor
Guilherme Lobão de Queiroz
Resumo Expandido
O indigesto no cinema pode ser um tema amplo, inalcançável. Podemos entender o indigesto da perspectiva de Glauber Rocha e a Eztetyka da Fome. Eis um cinema realizado na ordem inversa do que pode ser tido como “palatável”, termo ascendido a jargão da crítica cinematográfica para adjetivar narrativas elementares, óbvias, avessas ao ruído, ao confronto, às normas gerais do aparelho clássico fomentado por Hollywood.

Um cinema engajado politicamente, um cinema feminino, negro, LGBTI, periférico podem ser compreendidos como expressões de uma estética do “indigesto”, pois contrapõem processos culturais e relacionais hegemônicos com discursos. São a rigor difíceis de serem assimilados, engolidos. Ao perseguirmos um ser-em do indigesto, encontraremos uma possibilidade de revisão dos sentidos que o evocam. Do literal ato de comer, ponto de partida desta exploração, investigaremos manifestações notoriamente estapafúrdias, proibidas, repulsivas e perturbadoras do processo de degustação alimentar (ou insinuações tangentes a este) usando como referência o cinema brasileiro.

O paladar não se reduziria às sensações somatossensorais do aparato fisiológico, mas abre-se para uma complexa ordem de uma experiência mais ampla que evoca todos os sentidos, segundo apontamento do filósofo da estética da alimentação, Nicola Perullo. A partir desse cruzamento entre a experiência estética do palato de Perullo com o mergulho nas dissensões temporais de um innan heideggeriano, buscamos projetar a esfera de entendimento deste sentido para o âmbito de um imaginário da indigestão.

Ora, não seria o paladar o sentido a registrar o mais alto nível de repulsa sensorial, ao menos fisicamente? Ver, ouvir, cheirar e tocar podem ser muito menos invasivos do que o lamber, o mastigar, o deglutir. Por empreendermos uma pesquisa de ordem fenomenológica desta experiência – portanto evitando o fetichismo de submeter-se a práticas de patologias alimentares a que vamos nos referir, como canibalismo, vampirismo e bulimia nervosa –, recorremos a uma reflexão permitida pela análise cinematográfica, uma vez que o cinema (a exemplo da literatura, das artes, da oralidade) se apresenta como síntese do imaginário nacional de costumes, modos, tabus etc..

Especificamente, analisaremos as manifestações do indigesto em um pequeno recorte de três longas-metragens separados por uma década cada: A marvada carne (1985), O monstro legume do espaço (1995) e Estômago (2007). Desse corpus, extrairemos as representações do ato de comer em uma esfera imaginária, pertencente ao campo da ficção, mas sobretudo com uma força estética efetivamente dizente. Ora, não nos deparamos, parvos, estáticos, diante da tentação dos prazeres da carne, representada pela obsessão glutônica de Nhô Quim no filme de André Klotzel; muito menos das chocantes sequências da ficção científica impopular de Peter Baiestorf; ou do conto rodrigueano regado a banquetes em uma penitenciária, dirigido por Marcos Jorge.

Esta pesquisa sugere compreender tal imaginário a partir de uma imersão fílmica de modo a nos transportarmos a uma noção do indigesto para além do seu traço mais pujante de mero antônimo ao que é digerível. Empenhamo-nos, deste modo em elaborar uma estética do indigesto pelas facetas da representação de narrativas ficcionais que podem nos conceder acesso lugares mais profundos do ser-na-terra.
Bibliografia

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