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  Título
A encenação na trilogia da justiça, de Maria Augusta Ramos
Autor
Daniela Duarte Dumaresq
Resumo Expandido
Quando assisti a Morro dos Prazeres (Maria Augusta Ramos, 2013) não pude deixar de pensar na proposição que Trinh T Minh-ha faz em seu filme Remontagem (Reassemblage, 1982). “Eu não tenho a intenção de falar sobre, apenas de falar perto”, diz Minh-ha. Não que os estilos de Minh-Ha e Ramos se pareçam. Isso especialmente não é verdade entre Remontagem e Morro dos Prazeres. Mas algo na forma de Ramos conduzir seu filme, me faz retornar aquela proposição.

Ramos trabalha o estilo do filme com rigor: a composição do quadro, o apuro da montagem. “Faço um tipo de cinema documental que é altamente formal, isso significa que o público é consciente desse formalismo.” (RAMOS em entrevista a FRANÇA e AVELAR, 2013, p. 96) Se coloca como herdeira da tradição de cineastas conhecidos pelo apuro do forma como Robert Bresson e Yasujiro Ozu. O que leva seu cinema a lidar com o engajamento do espectador por outro viés que não o do melodrama, o da catarse ou o de uma projeção inconsciente. Sua busca é por uma forma que seja capaz de mobilizar a emoção e a reflexão, em um jogo complexo que aproxima o observador-espectador ao mesmo tempo que o deixa de fora. Não se trata apenas de construir o observador distante, juiz das personagens e situações. Também não se trata de envolver emocionalmente o espectador e torná-lo um torcedor irracional diante do jogo cênico. A diretora explica sua busca, sua visão: “A emoção vem da forma. Não é que o cinema do Bresson e do Ozu seja frio. Você sente, mas de outra maneira. Você sai de um filme de Bresson sem saber o que o capturou. É forte e irreduzível. É uma experiência espiritual.” (Idem, p. 109)

O apuro formal combina-se a um pré-filme paciente: pesquisar, encontrar suas personagens, fazer-se aceitar por elas, construir uma intimidade. Em suas palavras: “Essa relação com os personagens é íntima. Com alguns mais e, com outros, menos. (...) Primeiro essas pessoas precisam confiar em mim. É um processo de dar e receber. Elas precisam saber de onde venho, o que penso e eu preciso me dedicar a essas pessoas; a equipe tem que ser também uma equipe que se doa. É um processo de amizade, praticamente.” (Idem, p. 102). A conquista dessa confiança se estende no processo de filmagem. É preciso que as práticas de filmagem abarquem essa ideia de construção de intimidade. A diretora explica: “Por exemplo, a câmera nunca está em cima das pessoas. Está sempre frontal e a uma certa distância, para que as pessoas não se sintam constrangidas. Apenas quando é realmente necessário, uso luz externa. Quando estamos filmando uma conversa, não fico interferindo. Espero até o final para pedir alguma coisa. Peço que contem a história outra vez ou falem algo novamente. Deixo a conversa fluir até o final. Interfiro quando é realmente necessário, porque a câmera parou ou tivemos um problema no som.” Em referência a essa relação de intimidade, Andrea França comenta: “Diria que essa “intimidade” (...) é, antes de tudo, um modo de conjugar e de tornar a câmera cúmplice dos corpos, de seus movimentos e durações.” (FRANÇA e AVELLAR, 2013, p. 94).

Nos filmes de Ramos, o apuro formal combina-se a certa construção de intimidade capaz de construir certa relação de cumplicidade entre o espectador e as personagens. Um forma de estar perto. Neste trabalho proponho analisar aspectos da encenação dos filmes que compõem a trilogia da justiça [Justiça (2004), Juízo (2007) e Morro dos Prazeres (2013)], de modo a melhor entender como esse “estar perto” se constrói.
Bibliografia

AVELLAR, José Carlos e FRANÇA, Andréa. As imagens silenciosas e os corpos em desajuste no cinema de Maria Augusta Ramos. DEVIRES, Belo Horizonte, V. 10, N. 2, P. 90-109, JUL/DEZ 2013. [Entrevista]

BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz: a encenação no cinema. Campinas, SP: Papirus, 2008.

BRESSON, Robert. Notas sobre o cinematógrafo. Porto: Porto Editora, 2000.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 169-178.

FRANÇA, Andréa. Os dois corpos do réu ou as duas faces da imagem. Catálogo Juízo – o maior exige do menor, 2007. p. 8-9.

O CINEMA DE Trinh T. Minh-Ha. Rio de Janeiro, Caixa Cultural, 2015. [Catálogo]