Voltar para a lista
 
  Título
Urgência, imaginários fílmicos e construção da memória em “O Processo”
Autor
Gabriela Alcântara de Siqueira Silva
Resumo Expandido
Em “Memória, história, esquecimento”, Ricoeur fala de diversas questões que não cabem aqui com a devida atenção, mas há algumas em especial que encontram espelho no Brasil contemporâneo. Ao falar do “dever da memória”, das estratégias de esquecimento, Ricoeur nos aponta a importância da lembrança enquanto estratégia política e de sobrevivência, para que a História não se repita em seus aspectos mais tenebrosos. Diante de um dos maiores eventos da política brasileira, Maria Augusta Ramos responde a esta construção de memória voltando seu olhar para Brasília, e o que deveriam ser apenas alguns dias de filmagem transforma-se em cerca de 450 horas de material levadas à ilha de edição, de onde sai o contundente O Processo.

Sem o interesse de convencer o espectador ou reconstruir a realidade, emprestando falas e recriando acontecimentos como tem acontecido em obras de ficção recentes que também tratam da Lava Jato e dos fatos que se desdobraram a partir dela, Maria Augusta entrega ao espectador um retrato fiel dos bastidores do impeachment. Entretanto, é preciso lembrar sempre – em especial perante filmes como este – que estamos diante do cinema, e não de uma matéria jornalística. Maria Augusta não se pretende imparcial, nem tampouco panfletária. A subjetividade de seu ponto de vista diante do impeachment é costurada de forma sublime e elegante na montagem, assinada por Karen Akerman.

Para além dos depoimentos e declarações repetidos incessantemente nas mais diversas mídias, O Processo nos entrega detalhes do real que escorre pelas brechas e foge do espetáculo tendencioso da grande mídia, como aponta Comolli (2008). Seja o espectador favorável ou contrário a Dilma, acompanhar os enredo da forma como Maria Augusta o filma é compreendê-lo com uma clareza que não consegue ser transmitida através do jornalismo brasileiro. Diante da tela, vemos o PT e os senadores da esquerda lutando por uma espécie de sobrevivência política. Vemos os embates mais calorosos entre os políticos, mas é justamente nas cenas mais civilizadas que se tem a consciência do acontecimento enquanto um espetáculo ficcional em si. Um dos momentos mais marcantes do filme nesse sentido é quando vemos Lindberg Farias e Gleisi Hoffman apresentando seus argumentos, seguidos por um plano aberto que mostra que os membros da Comissão de Impeachment sequer os olham, com seus rostos e corpos virados, envoltos em conversas paralelas.

Nesta apresentação, realizo um estudo do filme partindo tanto da ideia de que ele trabalha com a construção de memória como um de seus principais objetivos, quanto de uma análise de seus modos de produção documentária diante da urgência do acontecimento. Mesmo que a adversidade de sua realização não exista na tela com imagens trêmulas ou da cineasta ao lado dos manifestantes em confronto com a polícia, ela está presente na necessidade do uso de imagens cedidas pela TV Senado, posto que o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, não autorizou a entrada das equipes de cinema no espaço. A urgência na construção daquelas memórias imagéticas reconhecida tanto pelos que a produziam quanto por aqueles que eram seus objetos de registro.

Interessa-me ainda olhar para este filme à luz das considerações de Deleuze (2015) acerca do acontecimento, algo que força nossos sentidos e nos leva a uma busca por novos significados, pelas respostas àquilo que acontece. Proponho então olhar seus gestos fílmicos, escolhas e potências, unindo-me às pesquisas que observam este cinema recente, que une estética e política como se buscasse responder a questão levantada por Migliorin (2014) acerca do que pode o cineasta diante de acontecimentos que contaminam “praças e países” (p. 235). A partir das personagens, a cineasta traça retratos humanos que escapam às cruezas e friezas da grande mídia. Como se filmar fosse um ato não só de resistência, mas principalmente de tentativa de compreensão, ela aprofunda-se, mergulha, retorna e observa o espetáculo montado pelos políticos.
Bibliografia

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: A inocência perdida. Cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.



CÉSAR, A. Cinema como ato de engajamento: o documentário brasileiro contemporâneo em contextos de urgência. Comunicação apresentada no 4º Colóquio Cinema, Estética e Política, realizado pelo Grupo de Pesquisa Poéticas da Experiência (PPGCOM-FAFICH-UFMG) no 26/06/15, em Belo Horizonte. Disponível em http://bit.ly/1UwPwEE.

DELEUZE, G. Lógica do Sentido. Tradução Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo, Perspectiva, 2015.



LEANDRO, A. O tremor das imagens: notas sobre o cinema militante. Devires, Belo Horizonte, v. 7, n. 2, pp. 98-117, jul/dez 2010.



MIGLIORIN, C. Ensaios na revolução: o documentarista e o acontecimento. IN: GONÇALVES, Osmar (org.). Narrativas Sensoriais. Rio de Janeiro: Editora Circuito, 2014, pp. 235-261.



RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora UNICAMP, 2007.