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  Título
A montagem operística de King Hu
Autor
Cecília Antakly de Mello
Resumo Expandido
Nessa comunicação, procurarei explorar o que chamo de ‘montagem operística’ no cinema do diretor chinês King Hu, pioneiro da renovação do estilo wuxia (武侠) em Hong Kong e Taiwan nos anos 1960 e 1970. Hu Jinquan (胡 金 銓) nasceu em Pequim, na China continental, em 29 de abril de 1931. Imigrou com sua família para Hong Kong em 1949 e, depois de uma década trabalhando para várias empresas de propaganda, juntou-se ao recém-criado Shaw Brothers Studio, que se tornaria o maior produtor de filmes na história do cinema de Hong Kong. Hu trabalhou como set designer, ator, roteirista e assistente de direção antes de se tornar um diretor com o filme de estreia The Story of Sue San (玉堂春, 1964). Sua primeira incursão no gênero wuxia foi Come Drink with Me (大醉 俠, 1966), onde plantou as sementes para sua inovação estética que floresceria um ano depois. Após o sucesso de Come Drink with Me, Hu partiu para Taiwan, onde dirigiu três obras-primas do cinema mundial: Dragon Gate Inn ((龍門 客棧, 1967), o episódio Anger no filme portmanteau The Four Moods (喜怒哀樂: 怒, 1970) e A Touch of Zen (俠女, 1971). Depois de 1971, Hu retornou a Hong Kong e fez filmes entre HK e Taiwan até sua morte em 1997.

Como ensina David Bordwell (2000b), Hu foi um mestre da montagem construtiva, remetendo-nos às origens da arte com Pudovkin. Em seus filmes de wuxia ou artes marciais é comum vermos, por exemplo, um personagem pular no Plano A, voar no ar no Plano B e aterrissar no Plano C. Num piscar de olhos a mágica do voo ocorre, sem que haja qualquer truque além do próprio corte. Nesta análise da montagem em King Hu, que levará em consideração principalmente sua obra-prima A Touch of Zen, partirei da premissa de que o cinema é uma forma de arte impura (BAZIN, 2014; NAGIB & JERSLEV, 2014), que compartilha recursos estéticos com outras manifestações artísticas como a literatura, o teatro, a pintura e a ópera. Conforme gostaria de sugerir, isso está na base da inovação estética do trabalho de King Hu nas décadas de 1960 e 1970, cuja relação intermidiática com a Ópera de Pequim foi determinante para a consolidação do seu estilo de montagem e para a renovação do gênero wuxia. Contudo, o cinema wuxia de King Hu não contém sequências de ópera ou outras relações diretas com essa forma de arte. Esse diálogo pode ser aferido lateralmente por meio da análise das técnicas de montagem desenvolvidas pelo diretor, que emulam elementos da coreografia operística com o intuito de criar uma coreografia de corpos em luta que é ao mesmo tempo uma coreografia do corte e dos planos. Assim, os personagens de King Hu podem saltar grandes distâncias, voar e aplicar golpes certeiros por meio da montagem, e seu kung fu, utilizado como elemento dramático nas tradições operísticas chinesas, torna-se possível no cinema por meio da coreografia de ação orquestrada pela montagem cinematográfica.
Bibliografia

Bazin, André (2014), O que é o cinema?, São Paulo: Cosac & Naify.



Berry, Chris and Farquhar, Mary (2006), China on Screen: Cinema and Nation. New York: Columbia University Press.



Bordwell, David (2000a), Planet Hong Kong: Popular Cinema and the Art of Entertainment. Harvard University Press.



Bordwell, David (2000b), ‘Richness through Imperfection: King Hu and the Glimpse’, in Poshek Fu and David Desser (eds), The Cinema of Hong Kong: History, Arts, Identity (Cambridge: Cambridge University Press, 2000), pp. 113-136.



Hu, King (2013), King Hu in His Own Words, edited by Roger Garcia. Udine: Udine Far East Film Festival, Centro Espressioni Cinematografiche.



Nagib, Lúcia and Jerslev, Anne (eds) (2014), Impure Cinema. London: I.B. Tauris.



Teo, Stephen (2004), King Hu’s A Touch of Zen. Hong Kong: Hong Kong University Press.