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  Título
Antropofagia e distanciamento em "A$suntina das Amérikas" (1975)
Autor
Renato Pannacci
Resumo Expandido
"A$suntina das Amérikas", filme realizado por Luiz Rosemberg Filho em 1975, lida com a questão do escracho própria aos filmes do período do Cinema Marginal. Bebe na fonte da chanchada e subverte convenções do musical hollywoodiano, refletindo sobre o país e sobre as questões de sua época com certo humor e viés nonsense, em contraposição aos filmes anteriores do autor, como "O jardim das espumas" (1970) e "Imagens" (1972), obras imbuídas de tom mais sério e amargo. O longa possui cunho antropofágico – no sentido da Antropofagia Cultural proposta por Oswald de Andrade – comum às artes e ao cinema brasileiro no período. A estética da colagem, característica que se aprofundará na obra posterior de Rosemberg, já se faz presente, através da utilização de imagens e sons de arquivo e de citações diversas ao cinema norte-americano e à cultura pop. O contato do diretor com o trabalho de Analu Prestes no teatro foi crucial para a concepção do filme, escrito especialmente para a atriz, que anteriormente atuou em peças do Teatro Oficina em sua fase mais radical, como "Gracias, Señor", encenada em 1972. Obra anárquica e de verve libertária e contestadora, com vazão para o improviso e atuações performáticas, "A$suntina das Amérikas" “é um filme explosivo, um antimusical sobre as influências de Hollywood na realidade brasileira”, como definiu à época Jairo Ferreira. Desde a infância Rosemberg sempre admirou o cinema musical norte-americano, e a partir do momento que tomou contato com as peças musicais escritas por Bertold Brecht, tinha em mente que o gênero clássico hollywoodiano poderia ter suas convenções subvertidas e transformadas em reflexões mais aprofundadas acerca da realidade brasileira. De fato, trata-se de uma obra que trabalha intensamente com os procedimentos de distanciamento / desilusão propostos por Brecht. "A$suntina das Amérikas" foi filmado e montado em 1974, tendo sua produção interrompida no ano seguinte por falta de verba. Rosemberg conseguiu financiamento com a Embrafilme no ano seguinte, para a finalização e distribuição do longa. Porém, antes que pudesse estrear no circuito de exibição comercial, "A$untina" foi interditado integralmente pela censura federal, posteriormente sendo liberado apenas para exibições em festivais de cinema no exterior. Durante a comunicação abordaremos os laudos da censura e parte da fortuna crítica sobre o filme, artigos de críticos como Jairo Ferreira (Folha de S. Paulo) e Jean-Claude Bernardet (Última Hora), que documentaram e refletiram acerca do filme e sua interdição.
Bibliografia

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