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  Título
Live Doc: a documentalidade nas performances audiovisuais
Autor
Rodrigo Corrêa Gontijo
Resumo Expandido
Determinadas performances audiovisuais que acontecem no âmbito do teatro documentário, da palestra performática (lecture performance) ou do cinema ao vivo (live cinema) produzem narrativas ensaísticas que se aproximam da linguagem do documentário e, portanto, podem ser agrupadas a partir de características formais, estéticas e conceituais semelhantes.



Em Pixelated Revolution (2012), o libanês Rabih Mroué propõe uma reflexão sobre a midiatização da guerra na Síria, tendo como ponto de partida uma imagem encontrada na internet, onde o cinegrafista amador que registra um conflito civil é alvejado pelo seu próprio personagem. Em sua palestra performática, Mroué discute o poder da imagem e as relações entre aquele filma e aquele que é filmado. Em Futu Manu (2014), título que significa briga de galo em Tetum, Rodrigo Gontijo traz, numa performance de live cinema, imagens de uma disputa entre dois galos para metaforizar os horrores da ocupação da Indonésia em Timor-Leste. Este tipo de jogo, considerado um esporte em Timor, funciona como uma espécie de catarse da violência vivida na ilha, onde 1/3 da população foi brutalmente assassinada. Já em Campo Minado (2016), a argentina Lola Arias reúne veteranos argentinos e ingleses que lutaram na Guerra das Malvinas para reconstruir suas memórias depois de mais de três décadas do ocorrido. Neste teatro documentário, Arias recria um set de filmagens onde os “inimigos” se entrevistam, o que faz surgir uma relação direta entre a experiência e a fabulação.



A partir da análise destes três trabalhos que trazem a guerra (Síria, Timor-Leste e Malvinas) em suas narrativas através de textos informativos, imagens de arquivo e entrevistas, para afirmar, declarar e confirmar a existência de eventos traumáticos, refletiremos sobre o conceito de documentalidade nas performances audiovisuais. Para a artista e pesquisadora alemã Hito Steyerl, a documentalidade parte de procedimentos documentais que organizam e produzem afirmações sobre o mundo, a partir de uma forma específica de exercício de poder.



A documentalidade “descreve a incorporação de formações políticas, sociais e epistemológicas específicas ordenadas em uma política da verdade documental” (STEYERL:2003). Assim a documentalidade é um substantivo que expressa uma ideia, um estado ou uma situação da construção de uma verdade e que surge no campo do documentário, aparecendo também em suas formas expandidas. Já que as “formas documentais são menos o reflexo de uma realidade do que a criação dela mesma” (STEYERL:2003), a documentalidade surge como um conceito que nos permite compreender a produção de uma verdade documental, que vai de procedimentos narrativos e estéticos à políticas reguladoras que autenticam e validam determinados acontecimentos. Portanto a documentalidade pode aparecer em diferentes intensidades não só no campo do documentário, como também nas performances audiovisuais, no cinema de exposição, no filme-ensaio e até mesmo na ficção.



A documentalidade em ato performático faz com que, a cada nova apresentação, com a recombinação dos elementos que a constitui, novos aspectos das imagens documentais se revelem, propiciando uma multiplicidade de sentido. Assim, estas “formas de poder que se estruturam no campo de possíveis ações dos sujeitos através das produções de verdades” (STEYERL:2003) e que são encontradas em determinadas palestras performáticas (lecture performance), teatros documentários e cinemas ao vivo (live cinema) apontam para o surgimento de um campo que chamaremos aqui de Live Doc.
Bibliografia

CORRIGAN, Timothy. O filme-ensaio – desde Montaigne e depois de Marker. Campinas: Papirus Editora, 2015.



GONTIJO, Rodrigo. Obras e procedimentos: uma análise dos cinemas ao vivo. In: BASTOS, Marcus; ALY, Natália (org.). São Paulo: Pontocom, 2018.



__________________. Filmes em Atos Performáticos - do Cinema Expandido ao Live Cinema. In: TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (org.). O Ensaio no Cinema. São Paulo: Hucitec, 2015.



STEYERL, Hito. Documentarism as Politics of Truth. EIPCP: European Institute for Progressive Cultural Policies, 2003. Disponível em: . Acesso em: 20 de março de 2018.



______________. Incertidumbre documental. Re-Visiones, número uno, 2011. Disponível em: . Acesso em: 21 de março de 2018.



WEINRICHTER, Antonio (org). La forma que piensa: tentativas en torno al cine-ensayo. Gobierno de Navarra, 2007.