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  Título
Nas margens dos momentos musicais: outros ângulos da música em cena.
Autor
Suzana Reck Miranda
Resumo Expandido
Para além dos números de canto e dança, são muitos os modos de explorar a música filmada no cinema, o que implica em uma diversidade de articulações possíveis entre a narrativa fílmica e a performance musical. Estudos específicos sobre os musicais costumam levar em conta vários tópicos: integração dos números com a narrativa, fatores de disrupção, estilos de derterminados estúdios, contribuição específica de coreógrafos, excessos, imprevisibilidades, questões de gênero e de representação, entre muitos outros. Por outro lado, filmes não musicais que pretendem registrar o fazer musical são, por vezes, estudados a partir do desafio de filmar o corpo do(s) músico(s) e seus gestos à luz de uma aura de autenticidade, da preservação do evento pró-filmico sem alterações, da priorização de falhas e improvisos como marcas de uma experiência do sensível, ou mesmo de uma certa impossibilidade de filmar a música.



Amy Herzog (2009) tenta não desassociar estes exemplos e propõe o termo “momentos musicais” para designar cenas ou sequências em que a música “inverte a hierarquia imagem-som para ocupar uma posição dominante” no filme. Nestes momentos, os movimentos da imagem e a estruturação do espaço e do tempo são “ditados” pela música, seja em um filme musical, um melodrama, um documentário sobre rock ou num filme biográfico. Neste sentido, dados os diferentes ambientes nos quais um momento musical é expandido ou encenado, a autora acredita ser mais produtivo defini-lo não “em termos de suas característica formais e sim no que ele faz – no modo como o momento musical opera e nas funções que performa”.



Minha pesquisa observa momentos musicais em filmes hollywoodianos das décadas 1940 e 1950 em que há pequenos conjuntos de apoio em cena - com instrumentistas que tocam (ou fingem tocar) - para que as estrelas principais exibam seus talentos no canto e/ou na dança. As cenas escolhidas contam com a presença de músicos brasileiros que, no Brasil, eram muitas vezes celebrados por revistas e jornais da época como “embaixadores” da música e cultura brasileiras em Hollywood. No entanto, os respectivos filmes mantêm-os no anonimato - às vezes realocando suas qualidades musicais e nacionalidade.



Esta comunicação centra-se na participação de membros do conjunto Anjos do Inferno em filmes mexicanos e norte-americanos entre os anos 1940 e 1950. Seus corpos e gestos - ora essenciais, ora marginais - nos forçam a observar as funções dos momentos musicais a partir de outros ângulos, que tanto podem desvelar interações históricas e ideológicas subjacentes quanto relações peculiares entre a música e o cinema.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. The American Film Musical. Bloomington: Indiana University Press, 1987.

BRAGANÇA. Mauricio de. “A canção mexicana nos filmes de cabaré: prostitutas, rumbeiras e cabareteras nos melodramas musicais do cinema mexicano”. Contemporânea (UFBA), v. 12, p. 273-287, 2014.

COMOLLI, Jean-Louis. “Quelques pistes paradoxales pour passar entre musique et cinema”. Voir et pouvoir – L´innocence perdue: cinema, télévision, fiction et documentaire. Paris: Verdier, 2004. pp. 317-323.

CASTRO, Ruy. Carmen, uma biografia. São Paulo: Cia. Das Letras, 2005.

Base de dados

HERZOG, Amy. Dreams of Difference, songs of the same: the musical moment in film. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2010.

FEUER, Jane. The Hollywood Musical. Bloomington, Indiana University Press, 1993.

TINHORÃO, José Ramos. O Samba agora vai... A farsa da música popular no exterior. São Paulo: Editora 34, 2015.