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  Título
A cinematografia realista de Walter Carvalho em "Justiça"
Autor
Alexandre Gomes do Nascimento
Resumo Expandido
A assunção do termo realismo no interior dos sistemas de representação é um tanto polêmico em função da ambiguidade assumida pelo vocábulo. Ele pode ser usado para designar movimentos artísticos ocorridos no século XIX, especialmente na Europa, estilos cinematográficos ou fenômenos da percepção. No campo do audiovisual, o assunto tem sido motivo de debates há muito tempo. Teóricos como Siegfried Kracauer e André Bazin dedicaram diversos estudos e análises a respeito do tema, abordando-o tanto pelo viés estilístico, psicofisiológico quanto pelo desenvolvimento tecnológico. Para Bazin, por exemplo, o realismo constituía a essência do cinema, devido sua capacidade de reproduzir os movimentos em toda sua plenitude espacial e temporal, além de restituir o ambiente sonoro de uma ação e lugar. Bazin também depositava grande confiança nos desenvolvimentos técnicos do meio para “a restituição de uma ilusão perfeita do mundo exterior, com o som, a cor e o relevo” (BAZIN, 2014, p.39).

O ideal realista defendido por Bazin foi alvo de diversas críticas, especialmente porque o teórico desconsiderava fatores subjetivos intrínsecos ao processo cinematográfico, subordinado a fatores como o “tipo de filme empregado, ao tipo de iluminação disponível, à definição da objetiva, à seleção necessária e à hierarquização dos sons, como é determinada pelo tipo de montagem, pelo encadeamento de sequências e pela direção” (AUMONT, 2012, p.135). Os críticos do estilo realista afirmavam que até a maneira como os realizadores exploravam os materiais de expressão cinematográficos, tinha relação direta com as regras e convenções de um determinado período. (BORDWELL, 2013)

Compreender os aspectos fenomenológicos e históricos que envolvem o realismo cinematográfico são fundamentais para a análise das estratégias narrativas e discursivas de uma obra que pretende produzir um efeito de real. Em "Justiça", as escolhas de Walter Carvalho em relação ao tipo de luz, comportamento da câmera, combinação de tons, etc., tem grande influência dos movimentos cinematográficos do período entreguerras como o Realismo Poético Francês e o Neorrealismo Italiano. Esses recursos expressivos constituem uma espécie de código, que permitem consolidar o efeito verossímil no interior do universo diegético e intensificar o envolvimento emocional do público diante das imagens mostradas.

Além dos aspectos estilísticos, o efeito realista de uma obra audiovisual também depende do avanço tecnológico e da qualidade dos materiais de expressão, conforme teorizou André Bazin. Por essa razão, não podemos desconsiderar a importância dos dispositivos de representação digital para a cinematografia de "Justiça". Mesmo que Walter Carvalho considere a tecnologia como uma simples ferramenta de criação, a riqueza perceptiva de uma imagem depende da capacidade dos dispositivos técnicos em restituir à cena representada os dados perceptivos do universo real. Dessa forma, consideramos que o aumento da capacidade de definição do sistema óptico, da resolução espacial e da profundidade cromática tem consequências diretas nos modos de fazer, perceber e sentir os acontecimentos cinematográficos.
Bibliografia

AUMONT, Jacques et al. A estética do filme. Tradução de Marina Appeenzeller. Campinas, SP: Papirus, 2012

BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984

BAZIN, André. O que é o cinema? Tradução de Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2014

BORDWELL, David. Sobre a história do estilo cinematográfico. Tradução de Luís Carlos Borges. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2013

BURCH, Noel. Práxis do cinema. Tradução de Michelle Pithon e Regina Machado. São Paulo: Perspectiva, 2015

COUCHOT, Edmond. A tecnologia na arte, da fotografia à realidade virtual.RGS: UFRGS editora, 2003

GOMBRICH, E. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 1993

LAURENTIZ, Paulo. A Holarquia do pensamento artístico. Campinas, SP: Edunicamp, 1991

METZ, Christian. A significação no cinema. Tradução de Jean-Claude Bernardet. São Paulo: Perspectiva, 2014

SANTAELLA, Lúcia (1996). Cultura das mídias. São Paulo: Experimento, 1996