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  Título
Olhares Móveis: experiências e experimentAções entre cinema e educação
Autor
Marcelo Henrique da Costa
Resumo Expandido
O presente estudo se apresenta como um relato de experiência com base em um recorte de minha pesquisa de doutoramento, que está em fase de conclusão, na qual foi desenvolvido com adolescentes e jovens de uma escola pública na cidade de Goiânia, como atividade de campo, um projeto de extensão intitulado Olhares Móveis que problematiza o uso dos aparatos móveis em ambiente escolar.

As oficinas de realização audiovisual com aparelhos de telefone celular foram executadas de modo que possibilitassem aos participantes o desenvolvimento do pensamento crítico acerca das imagens e, sobretudo, sobre as imagens produzidas por eles mesmos. A estratégia metodológica foi apoiada por dois eixos:a experimentação com os aparatos móveis / dispositivos audiovisuais, na perspectiva foucaultiana, e a experiência cartográfica.

As questões que nortearam as ações foram: as experiências de produção de narrativas a partir das atividades propostas pelo projeto Olhares Móveis são capazes de gerar processos coletivos de construção de aprendizagem? De que modo? Seria possível, assim, propiciar o desenvolvimento de um olhar crítico?

A escola é um locus dotado de temporalidade e espacialidade específicas. Estar no ambiente escolar para pesquisar e/ou desenvolver atividades de extensão universitária requer adaptação para lidar com agentes e atores de uma comunidade que atuam em um contexto diferente ao do ambiente universitário, de modo a encontrar formas de trabalho que se imbriquem ao cotidiano e ritmo da escola e de sua comunidade.

Esse exercício passa pelo respeito ao lugar de fala de alunos e professores e ao respeito pelo lugar que a escola ocupa na trajetória desses atores, pois, “toda pedagogia tem que se adaptar às crianças e aos jovens aos quais se dirige, mas nunca em detrimento de seu objeto” (FRESQUET, 2008, apud BERGALA, 2006). O pesquisador, a pesquisa, a universidade não podem estar desconectados dessa realidade, entretanto, a presença do pesquisador na escola precisa promover a reflexão de práticas, articular saberes, exercitar processos de feitura e refeitura. A realização de uma pesquisa em ambiente escolar precisa, em alguma medida, contaminar essa comunidade, em alguma instância, de alguma forma, de modo a contribuir/promover para processos de reflexão acerca de suas práticas.

Alain Bergala pensa a realização de um filme “como a marca de um gesto de criação. Não como um objeto de leitura, decodificável, mas cada plano, como a pincelada do pintor pela qual se pode compreender um pouco seu processo de criação”. (2008,p.34)

Pensando no dispositivo enquanto “gesto de criação”, como diria Bergala (2008), Migliorin destaca como ele pode ser armado para ativar um universo escolhido: “Um dispositivo era assim normalmente feito com poucas e objetivas regras que gerariam um grande descontrole, uma abertura para o acaso.(...)Ele pressupõe duas linhas complementares, uma de extremo controle, regras, limites, recortes; e outra de absoluta abertura, dependente da ação dos atores e de suas interconexões. (2015,p.78)

Migliorin possui um lugar de fala bastante singular, já que configura sua ideia de dispositivo, e de seus usos, a partir de sua experiência. Para ele o dispositivo é uma “experiência não roteirizável”, uma forma de propiciar a experimentação com as imagens de forma aberta e acatando as possibilidades oferecidas pelo acaso de cada execução, abrindo mão de soluções previamente estabelecidas e se lançando para novas possibilidades.

As possibilidades de intervenção na realidade escolar e no desempenho dos estudantes passam inevitavelmente pela subjetividade individual do sujeito e pela forma como cada um é afetado pela proposta pedagógica. Penso que a educação precisa tocar as pessoas e de alguma forma as ajudar a entender melhor o seu lugar no mundo, isso também é aprendizado.

Em www.olharesmoveis.ueg.br estão disponíveis as narrativas produzidas pelos estudantes e um pouco das experiências cartográficas no bairro em que a escola está situada.
Bibliografia

BARCELOS. Patrícia. Imagem-aprendizagem: experiências da narrativa imagética na educação. Tese (Doutorado)–Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade de Brasília, Brasília, 2015.

BERGALA. Alain. Hipótese cinema. Rio de Janeiro: Booklink; CINEAD/UFRJ, 2008.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

FRESQUET, Adriana. Fazer cinema na escola: pesquisa sobre as experiências de Alain Bergala e Núria Aidelman Feldman. In:Anais da 31ª Reunião Anual ANPED, Caxambu: ANPED, 2008.

MIGLIORIN, Cezar. Inevitavelmente cinema: educação, política e mafuá. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2015.

MORAN, José Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. Campinas: Papirus, 2012.

AGAMBEN, Georgio. O que é um dispositivo? In: O que é contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 209.p.25-51.

FOUCAULT, Michel. Sobre a história da sexualidade. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p. 243-276