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  Título
Luiz Fernando Carvalho e os Brasis saídos do galpão de arte
Autor
Victória Ester Tavares da Costa
Resumo Expandido
Luiz Fernando Carvalho associou ao seu nome, no decorrer dos anos e de suas produções, uma estética singular. O trabalho prévio em cada um de seus projetos, que antecedem pré-produções, tratam-se de concepções de personagens, ambientes, temáticas e emoções. Boa parte disto ocorre em um galpão, onde todas as ideias são postas à/para interação. Ao integrar outras linguagens artísticas, o diretor levou para o público de tv aberta produtos que se encontram fora do eixo comum para estas programações. O estranhamento que suas obras causam em primeira instância têm, em sua raíz, estudos e processos antecipados.

Neste artigo, proponho a observação detida sobre criações do diretor que se passam em diferentes locais, fazem parte de diferentes Brasis, sejam eles “reais” (existentes geograficamente) ou frutos da imaginação. Afinal, o que transpassa para o produto audiovisual final não são somente as características factuais dos espaços, mas toda a estrutura criada, os elementos que o sustentam. Aspectos estes perceptíveis em várias circunstâncias, a serem aqui discutidas, a destacar: O preparo de atores com imersões e processos que possibilitam o criar junto com o diretor, seja através do contato com referências, artísticas várias (como o teatro, característica latente nas obras do diretor); A direção de fotografia, que trabalha com texturas, com aproximações ao que se tem de fotografias estáticas, aliado ao minucioso trabalho da direção de arte que, nos detalhes, busca esta representação identitária baseada em parâmetros dados no roteiro.

“Hoje é dia de Maria” (2005), se passou em um sertão fictício, com cenários construídos e trama que envolve folclore, ao mesmo tempo que se inspira em contos populares. A interação com cortejo, grupo de teatro de bonecos, bem como personagens marcantemente expressivos e o cenário criado, auxiliam na criação do lúdico, sem deixar de ser local. A questão da seca e do sertão também se apresentam na novela “Velho Chico” (2016), com a concepção de personagens e da trama que perpassam por questões políticas e sociais, ao mesmo tempo em que a importância na concepção artesanal de cenários e figurinos objetiva chegar próximo da identidade dessa Bahia representada em cores saturadas e com inspiração em pintores como Portinari e Di Cavalcanti.

Fora do eixo de representação do Nordeste do Brasil, o seriado “Suburbia” (2012) se passa em um cenário carioca, onde violência e pobreza são cotidianas. O tom documental é transpassado para os cenários, que foram cidades de Minas Gerais e bairros do Rio de Janeiro, assim como a presença da cultura negra como um alicerce também da protagonista, ambientes inspirados por músicas e fotografias. Indo para outra parte do país, a minissérie “Dois Irmãos” (2017), baseada em um romance homônimo, se passa em uma Manaus do século 20, em que mudanças na região Norte do país são acompanhadas paralelamente à trama, na qual as cores, trilha e figurino auxiliam na percepção do desenrolar do tempo.

Com base em Mukarovsky, Paes Loureiro (2001) fala sobre a relação da estética com a coletividade humana, influenciando na criação e na fruição de obras, o que creio ser suscitado em Luiz Fernando Carvalho, dadas as diferentes linguagens que utiliza no âmbito das narrativas audiovisuais. Ao passo em que Canclini ressalta que, na contemporaneidade, analisar arte já não é analisar somente as obras, mas “as condições textuais e extratextuais, estéticas e sociais, em que a interação entre os membros do campo gera e renova o sentido” (2003, p.151).

Luiz Fernando Carvalho não deixou de trabalhar deste modo, no galpão que junta artes, mesmo com a especificidade de criar obras para um canal aberto de televisão, seu processo de imaginação e prática ocorre com estes trajetos. Nesta perspectiva, pretendo discutir a forma como o diretor (re)cria diversos Brasis consideravelmente mais consistentes e complexos a partir da integração de diversos tipos de arte desde sua concepção até sua exibição.
Bibliografia

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BOURDIEU, Pierre. As regras da arte – Gênese e estrutura do campo literário. Companhia das Letras: São Paulo, 1996.

CANCLINI, Néstor. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4ª ed. São Paulo: Edusp, 2003.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário de folclore brasileiro. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972.

FOSTER, Hal. O retorno do real. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

PAES LOUREIRO, João de Jesus Paes. Cultura amazônica: uma poética do imaginário. São Paulo: Escrituras, 2001.

RUFFINELLI, J. Notas para un viaje imaginario. Cinemais, Rio de Janeiro, n. 9, p. 41-84, jan./ fev. 1998.

SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da Imagem Eurocêntrica. São Paulo. Cosac Naifi, 2006.