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  Título
Rastros de arquivo, restos de revoluções: "No intenso agora" (2017)
Autor
Mariana Duccini Junqueira da Silva
Resumo Expandido
O caráter aberto e lacunar privilegiado nas produções audiovisuais que trabalham com materiais de arquivo, no documentário contemporâneo, problematiza os efeitos de atestação inerentes a essa modalidade enunciativa, desestabilizando, em determinados aspectos, o próprio teor documental dos enunciados de base. Sob essa perspectiva, o exercício da montagem, ao tensionar as versões estabelecidas das narrativas históricas que conformam os imaginários sociais, suscitam outros tipos de vínculo dos sujeitos com o passado (Figueiredo, 2017).

Intentamos, com isso, uma análise do filme No intenso agora (João Moreira Salles, 2017), observando como a prática da compilação de materiais de arquivo, na obra, desloca-se de uma vocação hermenêutica (com o intuito de estender à imagem os sentidos socialmente naturalizados, em vista de sua vinculação a narrativas históricas específicas) rumo à construção de relações que fazem emergir o caráter sintomático das imagens, marcado pela inscrição, nos próprios fragmentos, de uma temporalidade anacrônica (aqui entendida não como um defeito de ordem cronológica, mas como a emergência de um sistema de pensamento e percepção em outro(s), sublinhando a potência das formas que resistem, transformam-se e engendram novos contextos junto à instância espectatorial).

À luz da reflexão benjaminiana, que concebe a experiência do passado como a aparição de uma imagem que fulgura e se desvanece no momento mesmo de seu reconhecimento, inferimos que a dinâmica peculiar do trabalho com os arquivos audiovisuais torna indissociáveis, em seu processo enunciativo, três movimentos: a delimitação do contexto “original” em que circularam os fragmentos, assim como o estatuto valorativo a eles então atribuído; os procedimentos de reemprego dessas materialidades em novas modalidades enunciativas, por meio da montagem; e os efeitos de ressignificação das imagens e dos sons a partir desse processo. A possibilidade de se evidenciar novas conexões de sentidos relativas a imagens outrora circulantes, nesse horizonte, pressupõe a própria ressignificação das práticas sociais, que passam a conformar outros regimes de crença e veredicção quanto aos sentidos das experiências coletivas na contemporaneidade.

Ao reunir excertos de filmes célebres e de registros amadores – em que ganham relevo as filmagens tomadas pela mãe do realizador na China nos anos 1960 –, o documentário de João Moreira Salles alcança força expressiva, sobretudo, pela dimensão do anacronismo que propõe.

O tom de entusiasmo que impulsionava a adesão dos jovens aos levantes de 1968 na França, à Primavera de Praga ou à Revolução Cultural chinesa é impregnado, na obra, de um sentido de desconexão em relação ao momento contemporâneo. Paradoxalmente, a nota de melancolia que ecoa na narrativa fílmica tem menos a ver com o reconhecimento de um “tempo perdido” do que com a confrontação com os restos da experiência, ou seja, com as imagens que sobreviveram.

Trata-se da remetência entre um sujeito e um espírito de época que não fora diretamente vivenciado, cujos rastros temporais – materializados pelos arquivos imagéticos e sonoros – seguem, entretanto, ecoando na própria condição subjetiva: não nos termos de uma volta ao passado para apreendê-lo como uma continuidade, mas reconhecendo no anacronismo a espessura da história, que faz remontar a uma ordem do tempo as experiências que exorbitam a mera cronologia.
Bibliografia

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